domingo, 23 de dezembro de 2007

Noite de Inverno na ilha

Deitado. Está frio. Mas o vento sopra morno. O vento povoa a noite da ilha de criaturas fantásticas. Delas apenas os sons, as sombras. Umas colidem contra as janelas, outras apressam-se por entre folhas e ramos. Há ainda as que assobiam gravemente. Ou serão todos sinais das mesmas? Enterro-me mais fundo nos lençóis que tresandam à humidade que pesa no ar. O sono vence o medo inconsciente. Os seres ruidosos transportados nas rajadas são agora uma canção de embalar.

sábado, 15 de dezembro de 2007

6 meses («I love you out»)

Sometimes I float myself away
My freedom wants to stretch me out
I see the moon to its watery grave
I love you out
I have been coloured in and had
The light inside my eyes brightened
And when you smile you take me in
I love you out
You go in waves and come in light
And speak my name you speak it
You come with stars to fill up the night
With all that you have given me
I long to give as easily
I watch the stars slip off your cheek
I love you out
A hundred doves when I’m with you
My heart releases out of me
I’ll never want other than you
I love you out
You go in waves and come in light
And speak my name you speak it
You come with stars to fill up the night
And you fill it bright
Your love will light my way
Your kiss will be my pillow
Your breath will fill my sails
Your smile will leave me never, never, never

Sung by Carla Werner

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

O peso das palavras

São pesadas as minhas palavras? Pois se me pesa a alma, como não pesariam as palavras. É que vêm de dentro; não daquele dentro que é vazio, nem daquele que dizemos ser mas que na verdade está por fora. São os lastros deste barco que é o Ser, que os recolhe ao navegar através desse hemisfério plano, aquoso e sem caminho de regresso que é a vida. Se não os atirasse ao mar de uma folha de papel, ou de um qualquer suporte mais difícil de traduzir em metáfora, afundar-se-me-ia a alma.
Mas também as há providas de asas. Só que a essas não as queremos deixar ir. E se por momentos as deixamos voar, é sempre amarrando-as bem a nós, para que voando nos elevem para lá de tudo o que nos submerge.

Darkness and light, that's what's inside!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

The stranger

Just a glance and everything changes. A whole new world of possibilities unfolds with the sight of those unknown eyes. What unpronounceable spell unleashes such feeling, i can't tell! And how silently bright the gleam upon that stranger's face! How unavoidable its warmth! I ask myself what the odds are. What unsuspected desire to love! And then comes the time to leave. And it becomes so hard to turn my back on all the promises glimpsed. How i would want to see him again, even to follow him. Nonsense! Soon i will forget.

I don't know if my heart can take much more.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Regressar

E mais uma vez tanto mudou. Regressar. Preciso ouvir o que as ilhas têm para dizer de novo sobre mim. A verdade. É sempre o que dizem.

domingo, 2 de dezembro de 2007

O fim [ficção]

Sentara-me ao seu lado, de alma corroída pela dor da minha decisão. Olhava no vazio, procurando fugir àquele olhar inocente que ainda me fazia vibrar de amor, como naquele primeiro dia em que me sentira fulminado de águas límpidas. Esforçava-me por cerrar as narinas àquele perfume que nunca soube descrever, para que não deitasse por terra todas as muralhas que a custo lograra erguer.
- Estou cansado. Tão cansado.
- Eu sei. Não compreendo. Para ti nunca é suficiente.
- Talvez um dia percebas. Quando sentires que não é suficiente.
- Pois. Talvez. Mas eu amo-te.
- Pergunto-me se saberás mesmo o que é amar. E dói-me. É que te amo tanto.
- Mas então...
- Não o posso fazer sozinho. Não o posso fazer pelos dois. Tem de acabar. De que serve dizeres que me amas, se quando a voz se cala a solidão se instala de novo, e os gestos não são mais que ausência impenetrável, bloco de mármore pálido e frio, contra o qual esbarra o meu grito de necessidade, aquele que implorou amiúde que te entregasses a nós?
- Lá estás tu e as palavras.
- Se pudesses compreender que eu sou estas palavras e todas as outras que para ti são vento estéril, sobretudo quando não agradam ao teu egoísmo. Porque para ti está sempre tudo bem. É por isso que tenho de nos deixar para trás. Porque estou cansado do meu próprio eco. Porque estou fora de ti e tu estás entranhado em mim.
- Tu é que sabes. Não posso fazer nada.
Levantei-me. Ouvir mais seria insuportável. Ficar seria submeter-me a uma morte lenta. E se me morre a alma, que me resta?
Então afastei-me com lágrimas petrificadas na garganta.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Je voulus quitter

Je voulus quitter l'île
Vers la mer infinie.

Je voulus quitter la terre
Vers un ciel étoilé.

Je voulus quitter mon corps
Vers des peaux étrangères.

Je voulus quitter l'amour
Et malgré moi je réussis.

Je voulus tant quitter tout
Puis je rencontrai le bleu dans ses yeux.

Et à présent je veux rester.

Para lá da tua pele

Para lá da tua pele
Não há aquele cheiro.

Cheiro doce
Não sei a quê
Cheiro que me preenche
Não sei com o quê.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Iremos juntos sozinhos pela areia
Embalados no dia
Colhendo as algas roxas e os corais
Que na praia deixou a maré cheia.

As palavras que disseres e que eu disser
Serão somente as palavras que há nas coisas
Virás comigo desumanamente
Como vêm as ondas com o vento.

O belo dia liso como um linho
Interminável será sem um defeito
Cheio de imagens e conhecimento.

Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Assalto

Vieram durante a noite
Forçando todas as fechaduras
Vieram de dentro
Arrombando todas as saídas.

Tiraram-me o sono
Esvoançando céleres como num sonho
Abriram-me as pálpebras
Escarnecendo, gritando, ecoando.

Puxei de um caderno
E com a tinta de uma caneta
Preparei a armadilha.

Prendia-as no papel
Onde nem se mexiam
Perderam asas, cairam
Mas tiveram o que queriam!

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

O corpo

O corpo desistira, abandonara-se a si próprio. Jazia agora numa praia sem mar à vista, coberto por areia de outras paragens, cujos finos grãos, pela acção acomodadora do tempo, haviam penetrado fundo, enchendo até mesmo o coração. Quando a neblina cerrada se retirou sem prenúncio, revelou-se um promissor mar sereno, de um azul brilhante, reflectindo carícias de um sol novo. E foi então que começou a soprar a doce brisa, dádiva marinha. Depressa expôs o corpo lívido à amenidade da recém-renascida paisagem litoral. O corpo ergueu-se, voltou a acreditar, ensaiou os primeiros passos como se fossem na verdade os primeiros. E eis que a brisa se tornou rajada, removendo os grãos instalados no interior; e leve, o corpo trilhou o caminho que o vento lhe indicava, semeado de promessas a que só um coração gelado por Invernos sem fim não se entregaria. Mas, de quando em quando, parava olhando para trás com insegurança. É que alguns grãos renitentes persistiam embutidos no coração e no cérebro, alimentados pelas forças reencontradas do corpo, e vibravam de saudade da praia mãe. Então o corpo, desejando deveras seguir em frente, gritava ao vento não sem algum desespero: "Mais forte! É preciso que sopres ainda mais forte!"

sábado, 17 de novembro de 2007

Lucerna corporis

Lucerna corporis est oculus. Si ergo fuerit oculus tuus simplex, totum corpus tuum lucidum erit; si autem oculus tuus nequam fuerit, totum corpus tuum tenebrosum erit. Si ergo lumen, quod in te est, tenebrae sunt, tenebrae quantae erunt!

Secundum Matthaeum 6, 22-23

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

The cord

It's a multilayered cord channeling an invisible matter; it grows outside in and few things are as resilient as its core. No matter what harm is done to its outter layers, the deeper it penetrates, the harder it gets to affect the protected flow. And if you let that innermost strong, still extraordinarily thin wire come into existence, then you can be certain that you'll be connected for life.

But can the superficial layers, once severely damaged, regenerate?

sábado, 10 de novembro de 2007

Talvez pudesse, se...

Talvez pudesse quedar-me ali, parado no tempo, contemplando a linha recta dos lábios, curvando-se timidamente num sorriso quando os nossos olhos se encontravam e desencontravam naquele fingimento de indiferença. Talvez pudesse viver para sempre preso no desejo de repousar os meus lábios sobre os seus, suavemente rosados e polidos. Talvez pudesse ali ficar, sem nunca os aflorar, amando-o com o olhar. Talvez pudesse, se...

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

A dualidade de amar

Il est humain de chercher la douleur et aussitôt à s'en délivrer. Les propositions qui sont capables d'y réussir nous semblent facilement vraies, on ne chicane pas beaucoup sur un calmant qui agit. Et puis, si multiple que soit l'être que nous aimons, il peut en tous cas nous présenter deux personnalités essentielles selon qu'il nous apparaît comme nôtre, ou comme tournant ses désirs ailleurs que vers nous. La première de ses personnalités possède la puissance particulière qui nous empêche de croire à la réalité de la seconde, le secret spécifique pour apaiser les souffrances que cette dernière a causées. L'être aimé est successivement le mal et le remède qui suspend et aggrave le mal.

Marcel Proust in Sodome et Gomorrhe

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

What if we were meant to be together
What if you were meant to be the one
I could hide a million years and try to believe
That any time the boy in mind will come and rescue me

Cause you're the fire, you're the one
But you'll never see the sun
If you don't know, you're right next to the right one
And I could call it many names
But its myself I need to blame
If you don't know, you're right next to the right one

In the end you've got a friend for lifetime
Truly there to truly care for you
I know you cry a million tears so I want you to know
That a pretty face can take you to places you don't wanna go

Cause you're the fire, you're the one
But you'll never see the sun
If you don't know, youre right next to the right one
And I could call it many names
But its myself I need to blame
If you don't know, you're right next to the right one

So in the end it all depends on whether you'll find
Warm embraces when I replace the one you had in mind...

Cause you're the fire, you're the one
But you'll never see the sun
If you don't know, youre right next to the right one
And I could call it many names
But its myself I need to blame
If you don't know, you're right next to the right one


Sung by Céline Dion

sábado, 3 de novembro de 2007

23

Mais fácil seria o abandono de mim
Seguindo a corrente da vida sem a viver
Resignando-me aos abismos inertes
Onde tudo é gélido e medíocre

Injecto no peito anestesiado
O meu próprio veneno regenerador
Pulsa mais forte o coração
Enche-se o corpo de sangue revitalizado
Respiro ofegante, movo-me frenético

E sinto com cada centímetro de mim
As imagens, os sons, os cheiros e a pele que toca
Engulo a vida que por momentos deixei passar
Que agora transborda e verte dos poros dilatados.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Esperança

Os muros que se erguem para nos barrar o caminho, monolíticos e insensíveis, não resistirão à impetuosidade do nosso amor imprevisto; e as asas dos nossos sonhos tatuados de utopia, levar-nos-ão para além dos horizontes visíveis.

domingo, 28 de outubro de 2007

O barco

O amor é um barco que se debate e fortalece no mar irado contra a tempestade, mas corre o risco de naufragar nas águas imóveis de um lago demasiado pequeno.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Ghosts in my machine

Oh come and take this pain away
Oh come and take this pain away
Oh come and set my spirit free

I've seen too much
I know too much
I hurt too much
I feel too much
I dread too much
I dream too much
I'm caught up by the ghosts in my machine

I'm bruised and battered by the storm
Can't find a place to keep me warm
My mind is broken and forlorn

I think too much
I do too much
I fall too much
I fail too much
I cry too much
I die too much
I'm haunted by the ghosts in my machine

Give me some of that medicine
To make me forget
(i can't find it)
I need something easier
(can't find it)
'cuz I ain't found it yet
I ain't found it yet
I ain't found it
Oh no no no

My soul keeps hurting just the same
Oh come and take this pain away

I give too much
Get used too much
I lose too much
Get bruised too much
I bleed too much
I need too much
I'm sleeping with the ghosts in my machine

I said I love you baby
Guess I always do
I said I love to baby
Guess I always do
I said I love you baby
Guess I always do

Annie Lennox

domingo, 21 de outubro de 2007

Lágrimas

Somos lágrimas de Ré
Salgadas de alegria.

Que criariam os homens
De tantas lágrimas vertidas,
Se de demiurgo poder
Desfrutassem um só dia?

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

May i be wise

May i be strong and wise enough to cut away from my heart each and every blossom of hatred that grows whenever life doesn't turn out to be as i would fashion it.

sábado, 13 de outubro de 2007

Drunk

It is a screen i swallowed, changing the world i see. If this demon inside gets drunk, then maybe i can cover this pain.

Setembro, Redondo, Vodka

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Il y a des mots

Há as palavras que se declinam em cada olhar, em cada gesto. E há as palavras que se esvaziam de acções ausentes.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

He was the one

He was the one
To receive all my wave frequencies
He was the one
Painting with all my colours
He was the one
Playing all my strings
He was the one
Who has seen it all
From bottom to top
From skin to bone
Et pourtant...

domingo, 7 de outubro de 2007

caelum amoris

In oculis eius caelum amoris uideo

I love your eyes, my dear
Their splendid sparkling fire
When suddenly you raise them so
To cast a swift embracing glance
Like lightning flashing in the sky
But there's a charm that is greater still
When my love's eyes are lowered
When all is fired by passion's kiss
And through the downcast lashes
I see the dull flame of desire

Dull flame of desire, Björk

sábado, 6 de outubro de 2007

mare nouum



Perdido no Alentejo, caminhei sobre cetáceos de granito e acariciei ondas petrificadas. Encontrei um novo mar.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

A haste


Nesta haste sem bandeira
Diagonal apontada solitária para o céu
Poria o teu estandarte azul celeste
Se dos teus olhos o pudesse trazer comigo.

domingo, 30 de setembro de 2007

Besoin de silence

Trop de voix qui hurlent pour rien dire; des mots vides, du vent sans odeur. Face à ce bruit fade et lourd, je prie le silence de nos deux corps qui s'aiment.

domingo, 2 de setembro de 2007

A humidade do Amor

No choque de dois corpos que se amam libertam-se copiosos os humores de Eros. Atraem-se, misturam-se, tornam mais intenso o cheiro que me inebria. Teu ou nosso, já não sei. E nesta efusão húmida dois seres procuram unir-se em um; desejo absurdo de não mais se separarem.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Um dia de Julho em Mora - Amours parallèles / Saudades

Est-ce qu'un vrai amour meurt jamais, surtout quand il est le premier? J'ai voulu croire que oui, quand un nouvel amour a enflammé mon coeur. J'ai cru qu'il anéantirait le précédent, mais là je crois que ce n'est pas tout à fait ce qui m'arrive. Bien sûr c'est le dernier le plus fort, celui qui commande tout; l'objet de toutes mes angoisses, mes désirs, mes bonheurs fous et aussi mes douleurs les plus profondes. Mais l'autre reste là, une ombre douce et bienveillante, pourtant déjà trop loin. Mais pas assez pour m'empêcher de penser souvent à lui; mémoires où étincelles d'un amour passé? Je ne sais pas, et je ne m'en soucis pas non plus. Puisque je n'ai pas de doutes sur mon avenir; il est clair, translucide comme l'eau de mon île, et c'est dans ses yeux bleus que je veux me noyer une dernière fois avant de fermer les miens.

........................................................................................................................................................................

Mora. É aqui que cultivo as saudades de ti, cujas raízes, caules e folhas se tornam mais espessas a cada dia que passa, nutridas pelas forças que luto por extrair de um optimismo improvável. Estás em tudo. No céu são os teus olhos que brilham, e não o sol. A alvura quase perfeita das paredes alentejanas sugere-me a tua pele. E dela nem duas semanas de água fria puderam aplacar o desejo ardente que me consome.
Onde antes o que me faria mais falta neste interior isolado seria a imensidão do mar, agora são apenas as vagas amenas de ti, acariciando as minhas areias negras, que distantes me mergulham numa violenta calmaria de saudade.

domingo, 8 de julho de 2007

Prenúncio de saudade

Porque não sou Proust, porque não sei as palavras. Queria escrever-te, dizer-te mais do que o "amo-te". Mas quando o digo, acredito que nele vês mais do que a simples articulação de sons vocálicos e consonânticos, mais do que uma entrada no dicionário, e mais do que um conceito estereotipado e rígido que absorvemos dos outros ao longo da vida. Até que um dia o sentimos. E é nosso. E mais ninguém o conhece exactamente como eu e tu. E é isso que o meu "amo-te" contém, acompanhado de um olhar que traduz essa originalidade, essa genuidade.

Tudo isto porque queria escrever, e não conseguia. Porque as saudades já começaram, e tal como o amor por ti, não as sei descrever. Nem sei se deva, se o quero fazer.

Porque mesmo lá longe, estarás tão perto. Fecho os olhos e vejo os teus, iluminando-me mais do que o Sol. Inspiro e tenho o teu cheiro bem fundo nas narinas. E a minha pele ainda guarda os traços que a tua tatuou. Momentos fotografados e filmados em mim, que verei sem cessar, para te amar e sentir que me amas sem te ter verdadeiramente ao meu lado.

sábado, 7 de julho de 2007

Fortress

His embrace, a fortress
It fuels me and places
A skeleton of trust
Right beneath us
Bone by bone
Stone by stone

Björk

terça-feira, 3 de julho de 2007

Sopro de vida

Cheiro novo
A olhos azuis
A pestanas de sol
A cabelo revolto
A pele branca
A barba por fazer
A lábios de veludo
A corpo delicado.

Perfume indizível
O que exalas
Excitando
Despertando
O meu amor
Por ti
Nascido
De ti.

Brisa suave
Nas margens
Dos lagos
Onde vejo
Reflectido
O meu futuro
Impossível
Se sem ti.

Sopro de vida
Tu, mon ciel!

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Une sorte d'église

Je voulais pour nous deux bien mieux qu'une croyance
Alors je t'ai trouvé une sorte d'église
Dont les murs ne sont pas couverts de faïence, ni de marbre
Les vitraux je les brise, les piliers sont des arbres
L'autel est un rocher tapissé de lichen
On y parle, ni pardon, ni péché
On n'y fait pas l'commerce de douleurs et de peines
On n'y adore ni Dieu ni Diable
Mais la beauté des corps et le sort qui a mis ton amour dans mes veines

Je nous veux sans frontières, sans limites et sans lois
Je veux te respirer, te vivre et vivre en toi
Et croire qu'avant nous tout ça n'existait pas

Nous deux, nous méritons bien plus haut qu'une voûte
Alors je t'ai trouvé une plaine sans routes
Et sans autre limite que les points cardinaux
Et sans traces que celles de nos chevaux qui absorbent l'espace
Au sommet d'une colline j'allume une flamme
Pour qu'on sache qu'un homme une femme
Fêterons sous la Lune la nuit de l'origine
Sacrifice au bohneur de leurs âmes, au futur de leurs fils
Ici les Dieux s'adorent sans aucun artifice

Je nous veux sans frontières, sans limites et sans lois
Je veux te respirer, te vivre et vivre en toi
Et croire qu'avant nous tout ça n'existait pas

Daran

You're not from here

I don't know what is going on
You turn around and touch my heart
A silent moment speaks the truth
Something has happened all at once
It should have scared me in advance
But I was falling in those eyes of yours
And so
Fear was gone
I knew there was nothing else
I'd ever want

I know you
You're not from here
I've waited for you to appear
To take my breath away
And make me weep
You're not from here
Not from this here and now
Just a touch of yours
And I fly... and I fly... and I fly

I can't get used to missing you
If this is how it's gotta be
I need an angel to watch over me
No one can hold the hands of time
But I can hold you in my mind
Over and over like a melody
For now
I'll stand still
For now
I'll be filled by the memory of your skin

I know you
You're not from here
You don't belong to lies and tears
The greatness of your soul
Makes me weep
You're not from here
Not from this here and now
Just a touch of yours
And I fly... and I fly... and I fly

Lara Fabian


sábado, 30 de junho de 2007

Apologia

Outside this room, no one ever sees the whole me, only the stronger side...E se me precipito em insensatez, é pela necessidade de sentir que te tenho plenamente. É por sentir que tanto de ti está ainda longe do meu alcance, que o medo de perder o que já tenho se transforma em momentos de pânico imponderável. Because i'm not unbreakable...and i try hard to believe...i really do...

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Azorean torpor


Um céu de algodão sujo tolda o arquipélago das nove ilhas; o «mormaço» apaga os contornos do mar e da terra, e, amolecendo os pastos à custa do proprietário e do pastor, dilui e arrasta as vontades, dá a homens e a coisas uma doença quase de alma, a que os ingleses, médicos do bem-estar, puseram uma etiqueta como quem descobre uma planta nova neste mundo seco e velho: "Azorean torpor".

Vitorino Nemésio



Ainda que longe das ilhas, no clima decidido de Lisboa, o torpor desce sobre mim de quando em quando, encobrindo sentimentos, os bons e os nefastos, cortando temporariamente os filamentos que a eles me ligam. Por dentro perco de vista os contornos da alma, embebida na fatalidade das origens.

terça-feira, 26 de junho de 2007

Quero tempo...

Quero tempo. Tempo para desvendar esse país fértil que me mostras no olhar. Tempo para saborear as novas palavras que descobrimos dentro de nós; e o néctar idílico dos teus lábios...oh quero tanto tempo para te beijar! Esquecer o mundo nos teus braços e repousar a minha pele na tua. Quero simplesmente tempo para te amar.

domingo, 24 de junho de 2007

C'est bien ça ce qu'on appelle l'amour!

Je vous raconte sur ce qui m'habite à présent. Ça me fait du mal, mais ça me fait du bien. Je meurs de lui, mais il me tient vivant. La peur, les doutes et l'absence: je les côtoye souvent. Le bonheur, les sourires et les instants doux: je les revie incessamment. Je veux de toi, je veux du nous, et cette attente me rend fou.

Et puis malgré tout, je me dis: C'est bien ça ce qu'on appelle l'amour!

sábado, 23 de junho de 2007

Le géographe

La sixième planète était une planète dix fois plus vaste. Elle était habitée par un vieux monsieur qui écrivait d'énormes livres.
«Tiens! voilà un explorateur!» s'écria-t-il, quand il aperçut le petit prince.
Le petit prince s'assit sur la table et souffla un peu. Il avait déjà tant voyagé!
«D'où viens-tu?? lui dit le vieux monsieur.
- Quel est ce gros livre? dit le petit prince. Que faites-vous ici?
- Je suis géographe, dit le vieux monsieur.
- Qu'est-ce qu'un géographe?
- C'est un savant qui connaît où se trouvent les mers, les fleuves, les villes, les montagnes et les déserts.
- Ça c'est bien intéressant, dit le petit prince. Ça c'est enfin un véritable métier!» Et il jeta un coup d'oeil autour de lui sur la planète du géographe. Il n'avait jamais vu encore une planète aussi majestueuse.
«Elle est bien belle, votre planète. Est-ce qu'il y a des océans?
- Je ne puis pas le savoir, dit le géographe.
- Ah! (Le petit prince était déçu.) Et des montagnes?
- Je ne puis pas le savoir, dit le géographe.
- Et des villes et des fleuves et des déserts?
- Je ne puis pas le savoir non plus, dit le géographe.
- Mais vous êtes géographe!
- C'est exact, dit le géographe, mais je ne suis pas explorateur. Je manque absolument d'explorateurs. Ce n'est pas le géographe qui va faire le compte des villes, des fleuves, des montagnes, des mers, des océans et des déserts. Le géographe est trop important pour flâner. Il ne quitte pas son bureau. Mais il y reçoit les explorateurs. Il les interroge, et il prend en note leurs souvenirs. Et si les souvenirs de l'un d'entre eux lui paraissent intéressants, le géographe fait faire une enquête sur la moralité de l'explorateur.
- Pourquoi ça?
- Parce qu'un explorateur qui mentirait entraînerait des catastrophes dans les livres de géographie. Et aussi un explorateur qui boirait trop.
- Pourquoi ça? fit le petit prince.
- Parce que les ivrognes voient double. Alores le géographe noterait deux montagnes, là où il n'y a qu'une seule.
- Je connais quelqu'un, dit le petit prince, qui serait mauvais explorateur.
- Donc, quand la moralité de l'explorateur paraît bonne, on fait une enquête sur sa découverte.
- On va voir?
- Non.Cest trop compliqué. Mais on exige de l'explorateur qu'il fournisse des preuves. S'il s'agit par exemple de la découverte d'une grosse montagne, on exige qu'il en rapporte de grosses pierres.»
Le géographe soudain s'emut.
«Mais toi, tu viens de loin! Tu es explorateur! Tu va me décrire ta planète!»
Et le géographe, ayant ouvert son registre, tailla son crayon. On note d'abord au crayon les récits des explorateurs. On attends, pour noter à l'encre, que l'explorateur ait fourni des preuves.
«Alors! interrogea le géographe.
- Oh! chez moi, dit le petit prince, ce n'est pas très intéressant, c'est tout petit. J'ai trois volcans. Deux volcans en activité, et un volcan éteint. Mais on ne sait jamais.
- On ne sait jamais, dit le géographe.
- J'ai aussi une fleur.
- Nous ne notons pas les fleurs, dit le géographe.
- Pourquoi ça! C'est le plus joli!
- Parce que les fleurs sont éphémères.
- Qu'est-ce que signifie: "éphémère"?
- Les géographies , dit le géographes, sont les livres les plus sérieux de tous les livres. Elles ne se démodent jamais. Il est très rare qu'une montagne change de place. Il est très rare qu'un océan se vide de son eau. Nous écrivont des choses éternelles.
- Mais les volcans éteints peuvent se réveiller, interrompit le petit prince. Qu'est-ce que signifie: "éphémère"?
- Que les volcans soient éteints ou soient éveillés, ça revient au même pour nous autres, dit le géographe. Ce qui compte pour nous, c'est la montagne. Elle ne change pas.
- Mais qu'est-ce que signifie "éphémère"? répéta le petit prince qui, de sa vie, n'avait renoncé à une question, une fois qu'il l'avait posée.
- Ça signifie "qui est ménacé par la disparition prochaine".
- Bien sûr.»
«Ma fleur est éphémère, se dit le petit prince, et elle n'a que quatre épines pour se défendre contre le monde! Et je l'ai laissé toute seule chez moi!»
Ce fut là son premier mouvement de regret. Mais il reprit courage:
«Que me conseillez-vous d'aller visiter? demanda-t-il.
- La planète Terre, lui répondit le géographe. Elle a une bonne réputation...»
Et le petit prince s'en fut, songeant à sa fleur.

Antoine de Saint-Exupéry

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Bí liom

Bí liom a stór mo chroísa ná scaoil mé go deo
Bí liom is tabhairt domh misneach
Gan eagla orm sa cheo

Bí liom nach fada 'n oíche gan tú ag mo thaobh

Suílfidh mé amach ar imeall ag cuartú ceol binn úr

Bí liom ar lorg síocháin is saoirse fadó
Dúirt tú liom éist fuaim an chláirseach
Sin é an ceol binn úr

terça-feira, 19 de junho de 2007

Pedaços de céu / Terra húmida

Por entre raios de sol, pedaços de céu afloram os meus olhos de terra húmida. E o calor penetra em profundidade no solo adubado de amor por ti. Como trepadeiras envolvendo-te, avançam desejos de te apertar nos meus braços e reposar os meus lábios nos teus.

Que os teus sóis brilhem sempre sobre mim. Que os ventos tépidos do que nos une afastem sempre as nuvens de tempestade que ameacem esconder de mim o céu protector dos teus olhos.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Conquered

You've already won me over in spite of me
And don't be alarmed if I fall head over feet
Don't be surprised if I love you for all that you are
I couldn't help it
It's all your fault

Your love is thick and it swallowed me whole
You're so much braver than I gave you credit for

Alanis Morissette


terça-feira, 12 de junho de 2007

Noites sem ti / Manhãs de esperança

Desde que me habitas, adormecer é atravessar o deserto. O meu corpo sente-se pequeno demais na vastidão dos lençóis. Não tem frio. Nem calor. Apenas sede de ti. Faim de toi. Cerro os olhos em busca da miragem. Recordo. Reinvento-te. Reconstruo-te. Projecto-me em futuros possíveis. Tu. Só tu. Despido do que nos separa, envolves-me e mergulhas-me num sono generoso. Langueo. Tendre sommeil. Into oblivion.
Morning brings you hovering inches from my skin. Mon coeur te suit, débordant. Mes yeux te cherchent, encore fermés.
E penso que um dia...tu ali. Pressionar-te contra mim. Inalar-te sem pudor. Oscilar ao ritmo do que te anima. Batimentos desencontrados, convergindo num só, maior que nós.
Mais un jour si loin. Qu'importe? Puisqu'on s'aime. Und das Meer ist ruhig.

Death of the beast / Freedom of an orchid

I finally let you go
Your roots no longer feeding on my heart
The beast to be tamed has died
And love perished.
A new flame turned it to ashes
A new colour made it hollow.
Nothing lingers but the beautiful memories
The unreplaceable moments drowned in the past.
Stronger wings have dried, and now i'm flying again.
So close the little door, seek a brighter sun,
A fertile soil awaits you, don't fear it.
I know you can reach it.
Remember how you made me who i am
How we made us who we are.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Identidade

Chorar o Atlântico

Cuspir do fundo da garganta a rocha negra

Reter a bruma no cabelo coberto de musgo

Erica azorica rasgando cada poro

Ter o coração por epicentro, câmara magmática

Nas profundezas o canto do cachalote

Trazer as ilhas no olhar

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Le garçon aux yeux de ciel

J'aime la tendresse sur sa voix
Et la pudeur de son sourire
Quand je lui avoue mon bonheur fou
Et le rouge envahit ses joues.

Je ris et je pleure malgré moi
Quand je pense à nos peaux qui s'attirent.
Et quand le jour de nos baisers viendra
Un tout nouveau monde nous serrera.

Je vous dis que c'est doux comme du miel
D'aimer le garçon aux yeux de ciel!

Mountains


once i was a big old bear
reigning blows on sparkly snares
in the woods after the snow
the white noise witch her hammers cold
rest beneath the pine and rose
in our suits and sunday clothes

cheer up my brother
it’s going to be alright
i know your hearts are heavy as mountains
but we're going to go back home one day

hang there little winter star
tell me who you really are
up above the world so high
like a diamond in the sky
born with honey in my hair
once i was a big old bear

cheer up my brother
it’s going to be alright
i know your hearts are heavy as mountains
but we're going to go back home one day

wore my dress up to my knees
there’s ghosts of babies in the streams

Sparklehorse

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Dernier mot

Parce qu'aujourd'hui mon sourire a perdu ses artifices. Parce qu'aujourd'hui mon coeur bat plus fort, désabusé. Parce qu'aujourd'hui les mots ne sont pas les mêmes. Et si tu ne le vois pas, c'est à force de combler ce vide d'un moi que tu inventes à ton gré. Tu ne me connais pas. J'ai aimé. Pas toi. J'ai été marqué une seule fois. Mais pas par toi. Toi, que du vent. Toi, que du brouillard. Toi, ma plus grande erreur. Pour toi, de l'indifférence. Et c'est bien ta faute. Et crois-moi - mais finalement que je m'en fou de ce que tu crois - ce qui m'habite à présent c'est tout nouveau, c'est de l'Immensité. Aux dieux de me juger.

L'amour naissant

Eu. Ígneo e telúrico, percorrido por lavas fundentes, por entre colossos negros de arestas irregulares e cortantes; erupções imprevisíveis. Basalto. Na transparência cristalina de lagunas gémeas, procuro as águas onde arrefecer as correntes incandescentes. Litoral redefinido, suavemente acariciado pelas vagas de um olhar.

E um espaço que separa, mas sem vazio. Espaço de fluído denso, de doce magnetismo. Preenchido por desejos e beijos imaterializados. Olhares, iões de paixão que fulminam, que aceleram o coração. Promessas de "Um dia...", de "quando", de "nunca" e de "sempre". Não são promessas. São o que sinto.

Por agora, encontros secretos, literatura espanhola, escadas ao sol, patos, momentos contados, palavras lidas, gestos reprimidos, lábios dormentes, mãos que se apertam num prenúncio de liberdades vindouras. Impaciência. Mas que importa, pois se te... e tanto por descobrir.

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Pertença

Sentia-se ali como a prancha que vem do alto mar e encontra enfim uma posição capaz de fixar as gaivotas e a sua própria massa de seivas, as suas fibras, os furos a que se agarram conchinhas e algas verdes.

Vitorino Nemésio, in Mau Tempo No Canal

domingo, 3 de junho de 2007

C'est une belle journée

Oh philosophie
Dis-moi des élégies
Le bonheur
Lui me fait peur
D'avoir tant d'envies
Moi j'ai un souffle au cœur

Mylène Farmer

Acordei a sorrir. Olhei-me por dentro. Descobri um mar novo vertido dos teus olhos, inundando-me. Uma vela abandonada numa praia de areia escura. Cravei-a no coração. E o vento nunca soprou tão forte, tão cálido. No horizonte uma nova terra. Mes paradis pleins de toi.

sábado, 2 de junho de 2007

Je plane

Au-dessus des étangs, au-dessus des vallées,
Des montagnes, des bois, des nuages, des mers,
Par delà le soleil, par delà les éthers,
Par delà les confins des sphères étoilées

Charles Baudelaire



J'ai perdu mes mots, je voulais le dire, l'exprimer, le crier même. Mais là c'est trop fort, trop grand...je ne sais pas comment ni pourquoi...c'est trop. Et je plane...

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Gravity of love

"O Fortuna uelut Luna" Turn around and smell what you don't see Close your eyes ... it is so clear Here's the mirror, behind there is a screen On both ways you can get in. Don't think twice before you listen to your heart, Follow the trace for a new start. What you need and everything you'll feel Is just a question of the deal. In the eye of storm you'll see a lonely dove The experience of survival is the key To the gravity of love. "O Fortuna velut Luna" The path of excess leads to the tower of Wisdom Try to think about it... That's the chance to live your life and discover What it is, what's the gravity of love "O Fortuna uelut Luna" Look around just people, can you hear their voice Find the one who'll guide you to the limits of your choice. But if you're in the eye of storm Just think of the lonely dove The experience of survival is the key To the gravity of love. "O Fortuna uelut Luna"

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Rien qu'un petit poème insensé

Aimer, lui.
Me donner, malgré
Ce beau passé,
N'est plus que des mots qu'on se dit.

À présent ce n'est plus la peine,
Puisque on n'est plus les mêmes.

Et pourtant j'avais cru que...

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Mea culpa

Plumbeo sub caelo eramus. Verba ibi dixisti, quae audire nolebam. Sed in oculis tuis uera erant. Et cor meum in abyssum descendit.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Wash your nightmares away...if i could

Sleep, don't weep, my sweet love
Your face is all wet and your day was rough
So do what you must do to find yourself
Wear another shoe, paint my shelves
Those times that I was broke, and you stood strong
I think I found a place where I...

Sleep, don't weep, my sweet love
Your face it's all wet 'cause our days were rough
So do what you must do to fill that hole
Wear another shoe to comfort the soul
Those times that I was broke, and you stood strong
I think I found a place where I feel I will...

Sleep, don't weep, my sweet love
My face it's all wet 'cause my day was rough
So do what you must do to find yourself
Wear another shoe, paint my shelves
Those times that I was broke, and you stood strong
I hope I find a place where I feel I belong

Sleep, don't weep, my sweet love
My face is all wet 'cause my day was rough

Damien Rice

Hard to please

Small things nourish my ability to love. Ignition of the heart. And when the whole picture is appealing there's always that little something inhibiting the spark. And so the reek lingers in my nostrils, the unpleasant taste of a kiss that never took place.

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Suauis cupido

Enquanto debitava um discurso árido que a minha atenção recusava absorver, eu olhava-lhe para o nariz. Pensava como era belo. Pequeno e recto, erguia-se suavemente na planura da face, quase feminino. Por vezes os seus olhos prendiam os meus. Olhos que outrora foram a minha perdição. Ou salvação? De um castanho sólido, invasivo. Talvez por isso um dia pensei que eram verdes. Só vira aquela impenetrabilidade em olhos de um verde cristalino. Mas são castanhos. Depois lembrei-me das mãos. Baixei o olhar enquanto continuava fingindo interesse nas palavras inúteis que insistia em proferir. Ao ver as mãos, percorreu-me uma onda de doce desejo. Robustas, de dedos delicados, revestidas pela mesma pele leitosa que o percorre por inteiro. Perdi-me então na atracção exercida pela alvura literária da tua pele; e quis que te calasses; e anseei por possuí-la com a paixão que agora é carne.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

En passant

Toutes les ébènes ont rendez-vous
Lambeaux de nuit quand nos ombres s'éteignent
Des routes m'emmènent, je ne sais où
J'avais les yeux perçants avant, je voyais tout

Doucement reviennent à pas de loups
Reines endormies, nos déroutes anciennes
Coulent les fontaines jusqu'où s'échouent
Les promesses éteintes et tous nos vœux dissous

C'était des ailes et des rêves en partage
C'était des hivers et jamais le froid
C'était des grands ciels épuisés d'orages
C'était des paix que l'on ne signait pas

Des routes m'emmènent, je ne sais où
J'ai vu des oiseaux, des printemps, des cailloux
En passant

Toutes nos défaites ont faim de nous
Serments résignés sous les maquillages
Lendemains de fête, plus assez saouls
Pour avancer, lâcher les regrets trop lourds


Déjà ces lents, ces tranquilles naufrages

Déjà ces cages qu'on attendait pas

Déjà ces discrets manques de courage

Tout ce qu'on ne sera jamais, déjà

J'ai vu des bateaux, des fleurs, des rois
Des matins si beaux, j'en ai cueilli parfois
En passant

Jean-Jacques Goldman

terça-feira, 1 de maio de 2007

Can it be? / Dúvida

Terás tu razão? E se daqui a dez anos? É que sabes, faz sentido que assim seja. Porque como não voltar, como estar em paz com a minha solidão se isto não é o que acreditei ser. Mas dois anos de felicidade não se passam sem que aquilo exista, forte, unindo-nos para lá da razão. Ardeu. Tem de ter ardido. Queimei-me. Lembro-me bem. Mas a água avançou e eu não me apercebi. A água que ferve enquanto escrevo estas palavras. A chama que luta por não se apagar. Talvez se esteja a apagar. Talvez seja isso. E tudo o que ainda sinto são ondas de calor que me percorrem violentamente quando piso terreno desconhecido. O calor da habituação. De me ter entregue completamente. De só o ter conhecido com ele. E um dia estes resíduos sedimentar-se-ão, formando uma generosa camada em torno do meu coração. Como na madeira de uma árvore um anel de uma estação fértil. Terre promise. Les oiseaux s'en souviennent.

domingo, 29 de abril de 2007

Percurso

Olho para trás. De onde venho espraia-se um rasto de destruição. Cauda ensanguentada de cometa. Poças de lágrimas espalhadas pelo solo pejado de fragmentos de dor. Não a minha. Essa carrego cá dentro. Não é ela que me preocupa. Estendo-lhes a mão. Mas tem espinhos. Não me consigo livrar deles. Dos espinhos. Não os vejo. Dizem-me que estão lá.
Em frente o caminho é incerto. A luz filtrada pela bruma impede-me de ver com clareza. Olhos sensíveis. Avanço não sem medo, lentamente. Curiosidade. Desejo de fascínio. Ofuscar-me.
E atrás os gritos lancinantes, os dedos gélidos do passado esforçam-se por invadir o presente. No fim do caminho o abraço enigmático da Morte. Effroi! Mas Tempo dá-me a mão firme, implacável. L'Ennemi! Conformo-me com a minha condição. Olhar o céu, o mar, e sorrir.

The flame drowned in boiling water

The flame drowned in boiling water,
Burning nevertheless.
The water boils.
The flame burns.

But in me the water wins,
It flows, foreseeing change.

And i regret your forlorn hearts.

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Nameless

Drifting in dark currents, there's some warmth now. I find some comfort in loneliness; it's easier this way. Unwilling to decide. So afraid of compromise. Yet something lurks in the deep. I can see it glimmering far below me. Will it hurt? Will it love? I wonder if i'll know how to face it, if i'll even recognize it. I'm not ready for it anyway. For now i'll just stare at the sky, dreaming of how it would feel if i could fly.

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Deus

Vês aqui a grande máquina do Mundo,
Etérea e elemental, que fabricada
Assi foi do Saber, alto e profundo,
Que é sem princípio e meta limitada.
Quem cerca em derredor este rotundo
Globo e sua superfície tão limada,
É Deus; mas o que é Deus, ninguém o entende,
Que a tanto engenho humano não se estende.

Luís de Camões

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Correntes

Correntes traiçoeiras agitam as profundezas. Inesperadas como o amor. Mas deixam-no à deriva. Que ao menos apenas arrastassem o meu corpo, a minha alma. Entorpecidos.

sábado, 21 de abril de 2007

J'attendais / Infância

Todo aquele tempo a renegar o Homem. Desgraçada condição. Exorcizar a minha humanidade. Apenas animal. Selvagem. Sim, era o que desejava. E olhava o mar - "Porque me afogas?". E contemplava o céu - "Porque me exiges asas?". Nas mãos um livro contando a história que queria viver - "Qualquer lugar, mas não aqui, não agora!".
E um dia surgiu o amor. Imperfeito de humanidade. Foi então que me rendi a ele, a ela. Mas por vezes ainda oiço o vento murmurar; e o mar segredando-me "Vem. Deixa-te afogar."
J'attendais...

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Risus stellarum

«- Quand tu regarderas le ciel, la nuit, puisque j'habiterai dans l'une d'elles, puisque je rirai dans l'une d'elles, alors ce sera pour toi comme si riaient toutes les étoiles. Tu auras, toi, des étoiles qui savent rire!»
Et il rit encore.
«Et quand tu seras consolé (on se console toujours) tu seras content de m'avoir connu. Tu seras toujours mon ami. Tu auras envie de rire avec moi. Et tu ouvriras parfois ta fenêtre, comme ça, pour le plaisir... Et tes amis seront bien étonnés de te voir rire en regardant le ciel. Alors tu leur diras: "Oui, les étoiles, ça me fait toujours rire!" Et ils te croiront fou. Je t'aurai joué un bien vilain tour...»
Et il rit encore.

Antoine de Saint-Exupéry

domingo, 8 de abril de 2007

Reflexos do passado (encore)

Te souviens-tu? Cette mer dont tu regardais sans cesse les moindres changements de surface; cet horizon que tu voulais tant franchir, ton avenir rêvé. Tu songeais à ces eaux où glissaient féeriques les objects de tes passions, désir de plonger.
Et puis un jour je t'ai perdu. Je ne te sais vivant que par l'émotion que j'éprouve en contemplant ces paysages que tu hantes encore.
Tu me manques. Rien qu'un petit espace, une toute toute petite trace...

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Ilha

Pudesse eu ser ilha, para que apenas o mar me prendesse. Os meus olhos lagoas, espelhando o céu até ao leito. A minha pele o solo irrigado de sangue, engendrando vida. A minha boca vulcão, expelindo lavas ardentes - palavras incomensuráveis de amor.

Sonho. Os meus cumes fustigados pela tempestade.

quarta-feira, 4 de abril de 2007

"Unravel"

While you are away
My heart comes undone
Slowly unravels
In a ball of yarn
The devil collects it
With a grin
Our love
In a ball of yarn
He'll never return it
So when you come back
We'll have to make new love

Björk

sábado, 31 de março de 2007

As palavras

Inopinadamente, as palavras soltaram-se do coração. Ascenderam aladas à garganta - como ascende o magma na chaminé de um vulcão, ameaçando a erupção improvável. Dei-me conta delas a tempo. Encheram-me a boca. Invadiram-me o espírito. Vibração. Tão cedo. Mas cerrei os lábios com firmeza. E tu viste-me o esforço. Perguntaste o que tinha eu. Nada. Não tenho nada. Mas tinha. E tenho. Mas não ali. Não queria que fosse naquele lugar. É que nem te podia tocar. Nem me podia dissolver nos teus braços, perder-me nos teus lábios. Nasceram por fim. Esperava-as ansiosamente. Mas tinham de brotar por si, independentes da minha vontade consciente. E assim foi. Plenitude. E agora estão lá. À tua espera. À nossa espera.

quarta-feira, 28 de março de 2007

Afogar-me

É doce, mas não um lago. Eu não sou de lagos. Sou do Mar. É pois salgado. Mas salgado de um mar colado à rocha negra. Imagem familiar, cara. Mas podia ser um lago. Nunca é tarde para amar um lago. E há também o verde. E o azul. Exaltados pela brisa suave de um fim de tarde primaveril. E as águas paradas. Lago ou mar, que importa? Animadas por correntes profundas, tépidas. Afogar-me sem luta.

terça-feira, 27 de março de 2007

L'intermittence

bien peu son absolus, au moins d'une façon continue, dans cette âme humaine dont une des lois, fortifiée par les afflux inopinés de souvenirs différents, est l'intermittence

Marcel Proust, À l'ombre des jeunes filles en fleurs

domingo, 25 de março de 2007

Viae ad te

São verdes, de uma beleza quase vulcânica, os caminhos que me levam ao vale onde me esperas. Encho o peito de paisagens que prenunciam o paraíso dos teus braços.

quinta-feira, 22 de março de 2007

Last message to a dark orchid

Hard to believe as it may seem when sorrow bathes your soul, you'll find a new soil to feed the colours within you. Thrust your head back, open your mouth. Swallow a newborn light, just let it in, despite the cloudiest sky. And then your soft coal-black petals shall recall how to shine again.

quarta-feira, 21 de março de 2007

Du corps à l'âme

A mão percorre o corpo. Vigorosa, intensamente. Quase como se pretendesse penetrar a pele. Pressiona, reconhece. Hesita ao aflorar uma imperfeição. Estuda-a. E depois ama-a. Apenas mais uma cor para o quadro final, perfeito de imperfeições. A mão transpira paixão. Serena. Na pele todos os poros se dilatam. Ânsia de receber. Transfusão mútua. No prazer da descoberta dois lábios procuram-se, completam a comunhão.
Onde em nós aquilo que aceita apenas um outro "eu" entre tantos possíveis, rejeitando com náusea todos os restantes? O que o justifica?

E assim sinto-o crescer em mim. Evolução. Não falta muito para extravasar. E, nesse momento, transfigurar-se-á em palavras que te direi. Mas não ainda. Um dia.

domingo, 18 de março de 2007

La paix retrouvée

Respirei fundo. Entraste-me pelas narinas. Um novo país condensou-se-me nos pulmões. Conquistou o coração. Sem guerra. E a paz de um tempo diluído, como se pudéssemos ficar assim para sempre.

segunda-feira, 12 de março de 2007

Réponse

Et je dépose le mien dans tes mains. Je sais que tu sauras prendre bien soin de lui. Je crois en toi.

E essa luz de que falas. Sabes tu que também me ilumina? Como um sol nascido entre os meus olhos e os teus.

domingo, 11 de março de 2007

Et l'on n'y peut rien

Olhas-me e eu reconheço-te. Tocas-me e a minha pele não te rejeita. Tão cheio o espaço entre nós. E então sei que sou em ti.

sábado, 10 de março de 2007

Recantos IV - Ailleurs


Ireland's Eye seen from Howth

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

Despojar-me de ti

Estas mãos. Não são as tuas!
Este cheiro. Não é o teu!
E estes lábios. Não são os teus!
E este olhar. Não te reconheço!
E este jeito. Estrangeiro!

Voltar. Não me deixo!
Ficar. Onde?

E despojar-me de ti. Não sei...

quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

Sinais de desespero

Esqueci o teu rosto. Perdi dentro de mim os detalhes que tão minuciosamente recolhi, aqueles que me permitiam reconstruir-te quando não te tenho por perto. Mas não o olhar. Esse não te pertence. É filamento frágil e efémero que se gera no espaço entre os teus olhos e os meus. E então tenho-te por momentos. Capturado nessa tua insinuação cruelmente ambígua, esforço-me por projectar até ti a massa viscosa da minha paixão. Esquivo, retalias com indiferença que não compreendo. E aqui me encontro prostrado, carregando este vazio repleto de dor.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

L'ange malveillant

Comme un ange malveillant, il descendit de ce ciel infernal pour anéantir le bonheur. De ses griffes il voulut arracher mon Coeur, et moi, aveugle, je l’ai déposé sanglant à ses pieds.

Il est parti, et mon âme désabusé...

sábado, 20 de janeiro de 2007

"Sacrifie-moi aux Dieux des amours amnésiques"

A dor de não ter o que ardentemente desejo. A perfídia de um Deus em que não quero acreditar. A prisão de um quarto que não o trará até mim. Sacrifiquem-me antes a esses deuses do esquecimento. Não. Não o quero esquecer...

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

L'absence

Comme tous ceux qui possèdent une chose, pour savoir ce qui arriverait s'il cessait un moment de la posséder il avait ôté cette chose de son esprit, en y laissant tout le reste dans le même état que quand elle était là. Or l'absence d'une chose, ce n'est pas que cela, ce n'est pas un simple manque partiel, c'est un bouleversement de tout le reste, c'est un état nouveau qu'on ne peut pas prévoir dans l'ancien.

Marcel Proust

sábado, 6 de janeiro de 2007

Rio de nuvens

Naquela manhã ainda tão jovem, não estava preparado para o que aquela paisagem, que todos os dias percorro com o olhar, me tinha a revelar. Não me apercebi ao iniciar a travessia da ponte, absorvido que estava nas palavras de Proust. Foi quando, por um breve momento entre o sonho e a realidade, ergui a cabeça para olhar à minha volta; foi nesse instante que vi o rio que agora era de nuvens brancas, um vasto tapete aparentemente imóvel, que só nas suas margens se expandia e contraía lentamente. E a terra recuara; a cidade suavemente acariciada, submergida pelas línguas vaporosas que se insinuavam, ora avançado, ora retraindo-se inseguras. Por cima, a lua, teimosa, brilhava ainda no céu azul da manhã recém-nascida.
Ao deixar esta sublime visão para trás, pensei: Estranho amor o que une o Tejo a Lisboa!