quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Ilhéus XIV - Cormac



Três vezes buscou Cormac no mar um ermo;
E três vezes embarcou Cormac em vão.

Quantos homens buscam na lonjura
O que dentro de si logo encontrariam!

No olho da tempestade


Passamos através da tormenta,
Os nossos corpos exsudando
Os licores da dor e do prazer,
Tão firmes de enlevos volúveis.

E eis que quando se faz chão
o mar na calmaria, vacilamos
periclitantes, sob o céu morno
do olho da tempestade.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Ilhéus XIII - Quadro outonal

Onírica se desenha a montanha ígnea, sob o filtro da luz outonal como véu sobrenatural separando os homens dos deuses, que parecem ocultar-se além do veio platinado do mar; e a sua plácida divindade contém a custo nas entranhas a sua violência demiurga.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

De lassitudine

Do cansaço já não sei
Os princípios nem os fins
Dos dias sempre os mesmos
Sei apenas a ausência de ti
espreitando nas ruas vãs
duma cidade indiferente.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Fragmentum XVII - Rivendell

I saw you by the water at Rivendell. Through the leaves, beams of light danced with your locks of copper and gold, under the elves' playful chants. Were you singing too?

If only i could love you a day without time in the halls of the Last Homely House.

sábado, 18 de setembro de 2010

Verba Aliena XII - Sono abismado


Le Gouffre

Pascal avait son gouffre, avec lui se mouvant.
- Hélas! tout est abîme, - action, désir, rêve,
Parole! et sur mon poil qui tout droit se relève
Mainte fois de la Peur je sens passer le vent.

En haut, en bas, partout, la profondeur, la grève,
Le silence, l'espace affreux et captivant...

Sur le fond de mes nuits Dieu de son doigt savant
Dessine un cauchemar multiforme et sans trêve.

J'ai peur du sommeil comme on a peur d'un grand trou,
Tout plein de vague horreur, menant on ne sait où;
Je ne vois qu'infini par toutes les fenêtres,

Et mon esprit, toujours du vertige hanté,
Jalouse du néant l'insensibilité.
- Ah! ne jamais sortir des Nombres et des Êtres!

Charles Baudelaire

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Vem

Vem pousar sobre os olhos inquietos
Como beijos que lhes desses, ligeiros;

Agitar-me em correntes de divindade branda
Como um olhar que me lançasses, doce abismo.

E, cobrindo-me do manto alvo da pele,
Alhear-me desta lonjura nédia de nada.

sábado, 4 de setembro de 2010

Fragmento XVI

Por entre este asco de superfície postiça, rebrilha a pura água do teu olhar perdido em profundidade.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Foram dias

Foram dias deslocados do tempo. Nas ilhas o tempo escorre por outros sulcos, abre-se por vezes num mar, fluindo ao sabor de uma maré indiferente. Foram dias de uma felicidade que não encontrou palavras, dispensou-as, aliás. Talvez seja isso; talvez as palavras só existam na infelicidade, na apatia, na necessidade de nos agarrarmos a um felicidade insatisfeita. Agora que o tempo voltou a perseguir-me nas ruas de Lisboa, emergem como uma visão, um indefinido sonho ledo, aqueles dias.

sábado, 3 de julho de 2010

Ilhéus XII

Cismo no vulcão
verso negro gravado
por um deus na paisagem.
Poeta de indizível matéria!

Cismo em mim
verso complexo tecido
por ignoto artesão
de sentidos sem palavras.

domingo, 6 de junho de 2010

O cansaço do escriba


Sínim mo phenn mbecc mbróenach
tar óenach lebor lígoll
cen scor fri selba ségonn,
dían mo chrob ón scríbonn.

Excerto de poema irlandês do século XI


Tentativa de tradução:

Estendo o meu pequeno cálamo humedecido
sobre o local de encontro de belos livros;
sem pausa para as possessões de mestres,
tão cansada de escrever, a minha mão.

sábado, 29 de maio de 2010

Idiomas imaginados

Ali semeado, o sangue
corre-lhe em vocábulos
Intensificado, no estertor
de qualquer coisa no
âmago, contra a paisagem
negra de areia jovem:
como se ali frutificasse
numa profusão de idiomas
imaginados em fonemas
vibráteis de quebranto.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Nihil noui condi potest

Nihil noui condi potest: tudo é variação do pré-existente.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Telémaco

- Agora é noite perdida de medo azul e longe intenso...

Mário de Sá-Carneiro


Desceu a deusa a visitar-me
Travestida em Solidão glauca.

Degustava-me o coração, dizia:
- Ainda vive a tua Alma, retida
no Oceano por nove ninfas ciumosas.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Poema nemesiano incompleto aut Poema nemesiano sem solução

Sei-me bicho estarrecido no negrume
de uma furna de Nemésio (...)

Onde houve lava, arrefeceu num colapso
de vazio (...)

Lambo do musgo a humidade condensada
dos meus dias (...)

Por onde a luz se esgueira espreito
o Tempo que não há cá dentro e
(...)
evolou-se a morte num grito sinistro
de cagarro (...)

Sei-me homem enfraquecido
Numa cidade que já morreu.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Renúncia

A noite traz-me versos em desassossego,
Esvoaçando por aqui num tumulto cego:
A mim que não sou poeta!

Recuso, excomungo, abjuro!
Derrotados uns dispersam,
Outros vencem irredutíveis
A minha mão forçada contra papel.

E sempre a inquietante evidência:
É em mim que a noite os colhe!

sábado, 24 de abril de 2010

O lastro

A cabeça enterrava-se na almofada à semelhança de um lastro. Era como se todo o corpo estivesse submetido a uma improvável gravidade horizontal, que o compelia a despenhar-se sobre as faces atormentadas. Sob as pálpebras serpenteavam medos de sempre, cruelmente comandados por um sentimento de incapacidade que o arrastava para o desespero numa lentidão precipitada. Fora, a luminosidade insalubre da cidade invadia o quarto: violentava a noite e a morte que procuravam em vão um descanso de trevas. Foi então que a luz lhe matou a esperança. E ele, por sua vez, pediu ao sono que o matasse.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Ilhéus XI - Deixei-te

Deixei-te de pés enterrados na areia negra,
Sentias na pele o mar novo tépido das ilhas.
Deixei-te estendido no basalto aquecido ao
sol e sobre o esfagno da caldeira e aquele
silêncio de ausência das coisas dos homens.
Deixei-te no ponto mais alto, na vulcânica
desolação em que te roubei um beijo que
me deste com o hálito sulfúreo da Terra
e nele o murmúrio Agora sabes quem Sou.

domingo, 18 de abril de 2010

Fragmentum XV - in manibus pectoreque

Nas mãos a plenitude de um corpo silente, morno, e no peito a ânsia por uma improvável absorção.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Ilhéus X - Há na cidade uma ilha

Há na cidade um mar que a submerge,
mar profundo de azul insular.

Há urze e faias nos prédios
em metamorfose e no ar
o cheiro a terra húmida
e negra, fértil de enxofre.

Há em Lisboa uma ilha,
quando acordado esqueço a cidade.