sábado, 18 de setembro de 2010

Verba Aliena XII - Sono abismado


Le Gouffre

Pascal avait son gouffre, avec lui se mouvant.
- Hélas! tout est abîme, - action, désir, rêve,
Parole! et sur mon poil qui tout droit se relève
Mainte fois de la Peur je sens passer le vent.

En haut, en bas, partout, la profondeur, la grève,
Le silence, l'espace affreux et captivant...

Sur le fond de mes nuits Dieu de son doigt savant
Dessine un cauchemar multiforme et sans trêve.

J'ai peur du sommeil comme on a peur d'un grand trou,
Tout plein de vague horreur, menant on ne sait où;
Je ne vois qu'infini par toutes les fenêtres,

Et mon esprit, toujours du vertige hanté,
Jalouse du néant l'insensibilité.
- Ah! ne jamais sortir des Nombres et des Êtres!

Charles Baudelaire

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Vem

Vem pousar sobre os olhos inquietos
Como beijos que lhes desses, ligeiros;

Agitar-me em correntes de divindade branda
Como um olhar que me lançasses, doce abismo.

E, cobrindo-me do manto alvo da pele,
Alhear-me desta lonjura nédia de nada.

sábado, 4 de setembro de 2010

Fragmento XVI

Por entre este asco de superfície postiça, rebrilha a pura água do teu olhar perdido em profundidade.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Foram dias

Foram dias deslocados do tempo. Nas ilhas o tempo escorre por outros sulcos, abre-se por vezes num mar, fluindo ao sabor de uma maré indiferente. Foram dias de uma felicidade que não encontrou palavras, dispensou-as, aliás. Talvez seja isso; talvez as palavras só existam na infelicidade, na apatia, na necessidade de nos agarrarmos a um felicidade insatisfeita. Agora que o tempo voltou a perseguir-me nas ruas de Lisboa, emergem como uma visão, um indefinido sonho ledo, aqueles dias.

sábado, 3 de julho de 2010

Ilhéus XII

Cismo no vulcão
verso negro gravado
por um deus na paisagem.
Poeta de indizível matéria!

Cismo em mim
verso complexo tecido
por ignoto artesão
de sentidos sem palavras.

domingo, 6 de junho de 2010

O cansaço do escriba


Sínim mo phenn mbecc mbróenach
tar óenach lebor lígoll
cen scor fri selba ségonn,
dían mo chrob ón scríbonn.

Excerto de poema irlandês do século XI


Tentativa de tradução:

Estendo o meu pequeno cálamo humedecido
sobre o local de encontro de belos livros;
sem pausa para as possessões de mestres,
tão cansada de escrever, a minha mão.

sábado, 29 de maio de 2010

Idiomas imaginados

Ali semeado, o sangue
corre-lhe em vocábulos
Intensificado, no estertor
de qualquer coisa no
âmago, contra a paisagem
negra de areia jovem:
como se ali frutificasse
numa profusão de idiomas
imaginados em fonemas
vibráteis de quebranto.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Nihil noui condi potest

Nihil noui condi potest: tudo é variação do pré-existente.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Telémaco

- Agora é noite perdida de medo azul e longe intenso...

Mário de Sá-Carneiro


Desceu a deusa a visitar-me
Travestida em Solidão glauca.

Degustava-me o coração, dizia:
- Ainda vive a tua Alma, retida
no Oceano por nove ninfas ciumosas.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Poema nemesiano incompleto aut Poema nemesiano sem solução

Sei-me bicho estarrecido no negrume
de uma furna de Nemésio (...)

Onde houve lava, arrefeceu num colapso
de vazio (...)

Lambo do musgo a humidade condensada
dos meus dias (...)

Por onde a luz se esgueira espreito
o Tempo que não há cá dentro e
(...)
evolou-se a morte num grito sinistro
de cagarro (...)

Sei-me homem enfraquecido
Numa cidade que já morreu.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Renúncia

A noite traz-me versos em desassossego,
Esvoaçando por aqui num tumulto cego:
A mim que não sou poeta!

Recuso, excomungo, abjuro!
Derrotados uns dispersam,
Outros vencem irredutíveis
A minha mão forçada contra papel.

E sempre a inquietante evidência:
É em mim que a noite os colhe!

sábado, 24 de abril de 2010

O lastro

A cabeça enterrava-se na almofada à semelhança de um lastro. Era como se todo o corpo estivesse submetido a uma improvável gravidade horizontal, que o compelia a despenhar-se sobre as faces atormentadas. Sob as pálpebras serpenteavam medos de sempre, cruelmente comandados por um sentimento de incapacidade que o arrastava para o desespero numa lentidão precipitada. Fora, a luminosidade insalubre da cidade invadia o quarto: violentava a noite e a morte que procuravam em vão um descanso de trevas. Foi então que a luz lhe matou a esperança. E ele, por sua vez, pediu ao sono que o matasse.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Ilhéus XI - Deixei-te

Deixei-te de pés enterrados na areia negra,
Sentias na pele o mar novo tépido das ilhas.
Deixei-te estendido no basalto aquecido ao
sol e sobre o esfagno da caldeira e aquele
silêncio de ausência das coisas dos homens.
Deixei-te no ponto mais alto, na vulcânica
desolação em que te roubei um beijo que
me deste com o hálito sulfúreo da Terra
e nele o murmúrio Agora sabes quem Sou.

domingo, 18 de abril de 2010

Fragmentum XV - in manibus pectoreque

Nas mãos a plenitude de um corpo silente, morno, e no peito a ânsia por uma improvável absorção.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Ilhéus X - Há na cidade uma ilha

Há na cidade um mar que a submerge,
mar profundo de azul insular.

Há urze e faias nos prédios
em metamorfose e no ar
o cheiro a terra húmida
e negra, fértil de enxofre.

Há em Lisboa uma ilha,
quando acordado esqueço a cidade.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Querem-me homem

Querem-me homem inventado
Com sonhos que nunca sonharei.

Querem-me homem falsificado
Por desejos que em mim não ardem.

segunda-feira, 22 de março de 2010

flexo in uesperam die

morre-me o sangue
e a vontade dissolvida
nas horas histriónicas
incolores do crespúsculo
troçando de um sono
que nunca chegou.

sábado, 20 de março de 2010

Previsão meteorológica

De teus olhos atmosféricos
se despenham a saraiva
que me perfura o espírito
e a eléctrica descarga
que de novo o traz à vida.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Choices

Is there in me a desire for a life of toil at sea, or rather for the comfort of a safe shore? I might become weary and overwhelmed by the endlessness of the great blue. Nevertheless safe shores are nothing but temporary, as we sit there gazing at the horizon, our hearts longing for the salty vastness. There shall always be gales that try our will, leading us astray; and isn’t it all about getting back on the right route after overcoming the storm and sail under soothed skies? For in the end of all things, only the watery god shall endure. And so shall true love.

sábado, 6 de março de 2010

Fragmentum XIV

Derramávamos em sobressalto o nosso desejo fremente, numa avidez de fruto proibido; e o cumprir-se do encontro dos nossos corpos apenas imaginado.