Sentia a solidão alastrar como um cancro e, em cada órgão, em cada tecido e em cada célula, um pedaço de alma marcescente repugnava a enganadora perfeição das arestas geométricas que me violentavam o olhar, desprovidas de humanidade; porque a humanidade está na desordem aparente de um bosque, na aspereza de uma falésia e na violência do mar que a hostiliza, na assimetria de um pôr-do-sol, enfim, na perfeita harmonia de imperfeições. E eu, bicho assustado, recuo ao derradeiro buraco em mim onde a carne ainda palpita quente e húmida.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
Onde a cidade é triste I - Hortas de Benfica
Como me dão asco as pequenas hortas de Benfica, onde couves e alfaces crescem em tumor por entre ruínas de plástico e latão. Só um prado verdejante me comove, na sua espera agonizante pelo derradeiro golpe que o betão lhe virá desferir.
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Fragmentum XI
Enquanto se esforçava por abrir as portas da mente ao cansaço do corpo, para que, por fim, o sono lhe viesse saquear os salões em desordem, interrogava-se se ser louco era aquilo de neles ouvir pássaros chilreando e os gritos estridentes de melros evolando-se.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Verba aliena X - A Furna
Debruço-me comigo no meu poço
- Tudo fundo sonoro e emparedado -
E, rente aos tampos, ouço, ouço
Meu coração aproximado.
Mas de ouvi-o sou pálido e sem pulso:
Meu sangue foi preciso para ouvidos
E bate os mares e a terra, avulso
Nos próprios glóbulos perdidos.
Quem deseje saber o que se escuta
Nesta parede intolerável,
Veja se cabe em minha gruta:
Impenetrável! Impenetrável!
Que frios só seu chão calcaram
E sua abóbada sou eu
Nas tarde em que me levaram
Os meus amores o que era meu.
E já seu eco é uma humidade,
Leve chorume do escuro
Que se aprofunda em saudade
E em minha carne se faz muro.
Só luz dos musgos me distrai
Os olhos das naves frias
Na furna imensa em que se esvai
O fio de água dos meus dias.
Tão aflorada e tão profunda,
Tão bela no pedraço e na leveza,
Tão forte nas marés de que se inunda,
Aberta ao mar e à lua acesa!
Seus corredores complicam-me na sombra,
Um dedal de silêncio abre uma pedra,
Rorejam gotas para alfombra
Do vácuo de alma que lá medra.
De líquenes veste o sonho a aurora
Que dificulta o poço poço;
A lágrima enche de hora a hora
O copo ao menino e moço.
Mas estrias de lava, quem lhe entende,
Se ali riscou fogo vermelho
Alto sinal que só acende
Meu coração, palheiro velho?
E estalactites, estalagmites,
Correspondências aguçadas,
Enxofre, bafio, pirites,
Homens fugidos, mulheres choradas.
Vai o escuro furando o poço ardente,
Ouvem-se no oco as águas:
Ah, que barulho frio e imoto
Enruga a minha vida quente,
O meu secreto lençol de águas
Em que, nenúfar, bebo e broto!
A furna trava de mistério:
Sua garganta aberta ao dia
Calou o íntimo minério
Da minha estreme poesia.
Cala-o para que eu próprio vá batendo,
Dos martelos comuns abandonado,
O possível no opaco de atro urdume:
Que eu levo fogo pegado
E ninguém me pega lume.
Mas, se ardido por mim, me devo só,
A escravidão que tenho ei-la diuturna:
É estar aqui, de ouvido impresso em pó,
A ouvir-me velho ouvindo a furna.
Vitorino Nemésio
- Tudo fundo sonoro e emparedado -
E, rente aos tampos, ouço, ouço
Meu coração aproximado.
Mas de ouvi-o sou pálido e sem pulso:
Meu sangue foi preciso para ouvidos
E bate os mares e a terra, avulso
Nos próprios glóbulos perdidos.
Quem deseje saber o que se escuta
Nesta parede intolerável,
Veja se cabe em minha gruta:
Impenetrável! Impenetrável!
Que frios só seu chão calcaram
E sua abóbada sou eu
Nas tarde em que me levaram
Os meus amores o que era meu.
E já seu eco é uma humidade,
Leve chorume do escuro
Que se aprofunda em saudade
E em minha carne se faz muro.
Só luz dos musgos me distrai
Os olhos das naves frias
Na furna imensa em que se esvai
O fio de água dos meus dias.
Tão aflorada e tão profunda,
Tão bela no pedraço e na leveza,
Tão forte nas marés de que se inunda,
Aberta ao mar e à lua acesa!
Seus corredores complicam-me na sombra,
Um dedal de silêncio abre uma pedra,
Rorejam gotas para alfombra
Do vácuo de alma que lá medra.
De líquenes veste o sonho a aurora
Que dificulta o poço poço;
A lágrima enche de hora a hora
O copo ao menino e moço.
Mas estrias de lava, quem lhe entende,
Se ali riscou fogo vermelho
Alto sinal que só acende
Meu coração, palheiro velho?
E estalactites, estalagmites,
Correspondências aguçadas,
Enxofre, bafio, pirites,
Homens fugidos, mulheres choradas.
Vai o escuro furando o poço ardente,
Ouvem-se no oco as águas:
Ah, que barulho frio e imoto
Enruga a minha vida quente,
O meu secreto lençol de águas
Em que, nenúfar, bebo e broto!
A furna trava de mistério:
Sua garganta aberta ao dia
Calou o íntimo minério
Da minha estreme poesia.
Cala-o para que eu próprio vá batendo,
Dos martelos comuns abandonado,
O possível no opaco de atro urdume:
Que eu levo fogo pegado
E ninguém me pega lume.
Mas, se ardido por mim, me devo só,
A escravidão que tenho ei-la diuturna:
É estar aqui, de ouvido impresso em pó,
A ouvir-me velho ouvindo a furna.
Vitorino Nemésio
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
Ilhéus IX - Insula beati
Brancas as terras, ao de leve tingidas
pelos laivos róseos de um amanhecer.
Para o mar sopram elísias brisas
das colinas delicadas e os vales
apetecem jardins de delícias.
Ilha! que de mim fazes bem-aventurado!
pelos laivos róseos de um amanhecer.
Para o mar sopram elísias brisas
das colinas delicadas e os vales
apetecem jardins de delícias.
Ilha! que de mim fazes bem-aventurado!
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Fragmentum azoricum
fletus omnes, quos maerentes oculi mei fundere nequeunt, nubes ter pluuit custodiens insulas nouem.
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Insónia
Minha pele derramou
o Sono no negrume
de uma noite inerte
que logo o devorou.
E eu abandonado ao queixume
do dia que nada reverte.
o Sono no negrume
de uma noite inerte
que logo o devorou.
E eu abandonado ao queixume
do dia que nada reverte.
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Ilhéus VIII - O tanque
Um poema
Regou-me a memória.
Ah, saudoso fantasma!
O portão de madeira dá para o carreiro de bagacina;
Passo a ameixoeira e a loja da velha casa,
Mas é ante a abertura do tanque que esta visão pasma,
E eu, nela empoleirado, à água escura jogo a minha mão pequenina.
Regou-me a memória.
Ah, saudoso fantasma!
O portão de madeira dá para o carreiro de bagacina;
Passo a ameixoeira e a loja da velha casa,
Mas é ante a abertura do tanque que esta visão pasma,
E eu, nela empoleirado, à água escura jogo a minha mão pequenina.
domingo, 6 de dezembro de 2009
Sem título
Meu porto de abrigo, meu farol,
Perdoa-me as vezes que renunciei à tua luz,
Queimado da dor exigente que é a do amor.
Mas fica sabendo que agora rojo a cruz
De ter desejado noutro céu tão falso arrebol.
Perdoa-me as vezes que renunciei à tua luz,
Queimado da dor exigente que é a do amor.
Mas fica sabendo que agora rojo a cruz
De ter desejado noutro céu tão falso arrebol.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Ilhéus VII - Garras
Mais fundo se enterram as garras da minha insularidade,
Nestas horas embebidas em melancolia;
E minh'alma túrgida de saudade
Só nas ilhas, ao longe, espera novo dia.
Nestas horas embebidas em melancolia;
E minh'alma túrgida de saudade
Só nas ilhas, ao longe, espera novo dia.
Ilhéus VI - 25
Nos meus olhos de terra havia o azul
Do mar que lambe a ilha a sul;
Neles entrou por não se cansarem de buscar
O sonho infante que ali deixei afundar.
Do mar que lambe a ilha a sul;
Neles entrou por não se cansarem de buscar
O sonho infante que ali deixei afundar.
domingo, 1 de novembro de 2009
Fragmentum IX - Les étangs
De tes yeux je fais des étangs où mon âme farouche assouvit sa soif meurtrière.
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Fragmentum VIII - Cemitério
Da janela, onde por vezes me quedo sozinho na fachada erma, não vejo morte; vejo apenas a dor dos vivos plasmada em lápides e mausoléus. Uma dor apaziguada, que me enternece no ar do entardecer, perfumado por flores e ciprestes docemente tristes.
sábado, 17 de outubro de 2009
Le temps perdu
Talvez um dia olhe para dentro e saiba ver. Talvez então regresse ao mar das ilhas, aquele que banhou a minha infância e só existe dentro de mim, e nele encontre, ainda boiando, um ovo nemesiano a custo contendo a câmara magmática que é fonte pungente dos meus medos e angústias originais. Talvez um dia recupere em algumas páginas esse tempo perdido.
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Fragmentum VII - Sementes aladas
(...) voláteis, como sementes aladas, milagres darwinianos, que, levadas por um vento decidido, sempre ansiassem por germinar noutro qualquer lugar diferente daquele em que foram generosamente depositadas.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Ilhéus V - Longing
May i breathe anon the thick moist air ever wreathing the islands of undying green, ere my soul is shattered by the engulfing turmoil of the city where the sunlight, shining much too bright, abuses my senses.
domingo, 30 de agosto de 2009
Ilhéus IV - Le trou
Que cherche-t-il dans ce trou,
Quand le coeur triste devient vilain caillou?
Tous ces erreurs alourdissent son corps:
Il fallait d'abord se tenir debout.
Quand le coeur triste devient vilain caillou?
Tous ces erreurs alourdissent son corps:
Il fallait d'abord se tenir debout.
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
Lamento continental de um ilhéu.
Em areais de finisterra - sol de Agosto ardente -
lá onde o Tejo espraia sua foz urbana,
e a ampla arriba encara o astro cadente,
inclino-me sobre a verde onda, banhando a turba humana;
Em terras do Austro, terra ruiva e olente,
manancial da porção do meu sangue arcana,
lá onde o Arade lodoso se lança indolente,
na verde onda despejo minh'alma que da saudade emana.
À verde onda imploro que célere a conduza
ao oceano azul, onde na bruma mora a musa
das ilhas encobertas que forjaram o meu Ser.
Nas veias mortificadas já se vai secando a lava,
e fenece a urze que na pele as suas raízes crava,
até que de novo à terra negra minh'alma vá beber.
lá onde o Tejo espraia sua foz urbana,
e a ampla arriba encara o astro cadente,
inclino-me sobre a verde onda, banhando a turba humana;
Em terras do Austro, terra ruiva e olente,
manancial da porção do meu sangue arcana,
lá onde o Arade lodoso se lança indolente,
na verde onda despejo minh'alma que da saudade emana.
À verde onda imploro que célere a conduza
ao oceano azul, onde na bruma mora a musa
das ilhas encobertas que forjaram o meu Ser.
Nas veias mortificadas já se vai secando a lava,
e fenece a urze que na pele as suas raízes crava,
até que de novo à terra negra minh'alma vá beber.
quinta-feira, 16 de julho de 2009
A Baudelaire
Quando me visitam os demónios da noite funda
C'est le Satan de tes litanies qui me guette dans l'ombre!
Da pele escorrem-me córregos de minh'alma moribunda,
Quand m'oppresse la cadence de ton horloge, ô poète sombre!
C'est le Satan de tes litanies qui me guette dans l'ombre!
Da pele escorrem-me córregos de minh'alma moribunda,
Quand m'oppresse la cadence de ton horloge, ô poète sombre!
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