terça-feira, 12 de março de 2013

Verba aliena XVI - omnia reuelabitur


Non enim est aliquid absconditum , nisi ut manifestetur, nec factum est occultum, nisi ut in palam ueniat.

Mc 4, 22 (Vulgata)

segunda-feira, 11 de março de 2013

Níall (II)


Ali transfixava-o a diva torrente de fluir eterno, as entranhas como seixos rolando sem esperança de atingir o Oceano, o esgar de quem dilui dor em singular ledice. De tal modo o castigavam deuses, in saecula saeculorum.

domingo, 3 de março de 2013

Níall (I)


Sob teixos, as águas indolentes passavam cantando promessas indecisas. Níall ouviu, cedeu, imergiu no curso sem retorno. Vitorioso o rio proferiu num murmúrio a esfíngica questão: "Em mim, que procuras, mortal? A foz ou a nascente?"

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

ἀπάθεια


um deus deserta
deixa vazio apatia 
dentro e em torno
do céu azul desfaz
a pelágica semântica

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Fragmentum XX - Praesentia bifrontia


Na soleira de Jano, um deus ignoto senta-se perplexo ante o presente bifronte.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Verba Aliena XV - L'insonnia del vecchio

Anche quella notte fu inquieta ma non sgradevole. L'insonnia prolungata è sempre un po' delirante. Non tutte le cellule rimangono deste. Certe realtà scompaiono e quelle che restano deste si sviluppano senza freno. Il vecchio sorrideva a se stesso come a grande scrittore. Egli sapeva di aver da dire qualche cosa al mondo, solo in quel dormiveglia non sapeva bene che cosa. Però era cosciente di essere a mezzo addormentato e sarebbe pur venuto il giorno e la luce a completare la sua mente.

Italo Svevo, in La novella del buon vecchio e della bella fanciulla

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

amoris prudentia

Escrevê-lo seria arrancá-lo ao sonho, impor-lhe limites, fixar esperanças demasiado reais para que não conduzissem a uma inelutável desilusão severa. Deixo-o então fora das palavras, porque um dia terei de acordar uma outra vez e mais um sonho cairá no esquecimento.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Le flacon

O frasco que contém o veneno - aquele que agora de novo se espalha célere pelas entranhas debicando como abutre pedaços daquilo que não tem nome e te habitava e agora apodrece - partiste-o de novo com as próprias mãos. E agora espantas-te que sob a pele não haja nada e olhas-te como àquelas crisálidas que em criança encontravas vazias mas intactas, relíquias de uma metamorfose fingida que nunca envolveram. 

Trempé par cette douleur qu'il ne ressentait point, il songeait déjà à ce prochain verrier qui viendrait sûrement refaire le flacon dont il aura toujours besoin pour contenir ce venin qui coule dans son âme comme le sang dans ses veines. 

Ma quante volte lo spezzarai ancora? Forse non troverai mai chi te lo rifaccia, perchè ormai è troppo fragile il vetro, così forte il veleno. 

domingo, 8 de julho de 2012

Oscilações

Semântico um olhar vago atirado contra a fachada que uma noite de Lisboa sublinha. L'esprit plein d'un horizon diffus, incertain, attirant toutefois. Self-imposed renunciation, lest sin should tear down frail barriers.

A janela corta em dois o céu em que renasce o azul que a deusa matinal vem orlar com manto alaranjado. Afinal, na memória só o calor do teu corpo adormecido é substância.

sábado, 7 de julho de 2012

Verba Aliena XIV - uenite nymphae

       


       Náiades, vós, que os rios habitais
que os saüdosos campos vão regando,
de meus olhos vereis estar manando 
outros, que quási aos vossos são iguais.

       Dríades, vós, que as setas atirais,
os fugitivos cervos derrubando,
outros olhos vereis que, triunfando,
derrubam corações, que valem mais.

       Deixai as aljavas logo, e as águas frias,
e vinde, Ninfas minhas, se quereis
saber como d' uns olhos nascem mágoas;

       vereis como se passam em vão os dias;
mas não vireis em vão, que cá achareis
nos seus as setas, e nos meus as águas.

Luís de Camões

domingo, 8 de abril de 2012

Fragmentum XIX - Aguilhão

Quando o aguilhão de um deus visceral rasga o véu delicado, envenena-se a certeza, descobrem-se horizontes indesejados. Vislumbre de verdade ou pedaço de mentira?

sábado, 7 de janeiro de 2012

Fragmentum XVIII - Símile

Agora arrastando atrás de si a trouxa das responsabilidades, retornado ante o mar fogoso e livre da sua infância, o pensamento vertia-se-lhe sobre o passado. Assim, sob um céu desanuviado de inverno, se atira contra a laje uma onda de azul profundo e, exibindo primeiro o seu ventre sinistramente esverdeado, desfaz-se em turquesa antes de se metamorfosear em espuma nevada que vai adornar a rocha negra.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Verba aliena XIII - La culture

La culture ne sauve rien ni personne, elle ne justifie pas. Mais c'est un produit de l'homme: il s'y projette, s'y reconnaît; seul, ce miroir critique lui offre son image.

Jean-Paul Sartre, in Les Mots

sábado, 27 de agosto de 2011

As cigarras

Não quero ser esta sucessão de dias sob os mesmo plátanos, os mesmos álamos, olhando os mesmos pedaços de céu recortados em arestas precisas. E fechar os olhos e acreditar no canto aderente das cigarras.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

O outro

Aqui posto e agora alienado, tão dolorosamente inepto, neste instante em que não sou em ninguém, em lugar algum. E mesmo se amo a cidade nas noites de jasmim e de laranjeiras em flor, tu como um sonho divagado. Afogar-me então em delírios verdes, para me sentir enfim exacerbado, embebido num mundo transfigurado. Mas nesse momento já não sou eu, o que escreve: há um outro que me substitui, um outro que não sou, mas que todavia me é demasiado.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Branco

Confrontada com os brancos de mármores e calcários que erigiam a cidade mediterrânica refugiada nas margens do Atlântico, a alma retraia-se-lhe em angústias lancinantes, exasperadas por uma luz demasiada. Pressentia nestes tons alvos o carácter funesto que lhes atribui Melville e nunca a pureza envergada por mártires recompensados no reino dos céus. Afinal era a cidade branca que lhe entregava o Amor e o Desejo em intermitências de êxtase, para logo depois os reclamar de volta em escárnio. Já a ilha negra de basalto guardava-os sob os auspícios de uma mais doce mas profunda saudade, envoltos em promessas de perene constância.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Catábase

Os infernos a que Díarmait descia eram outros: demasiado solitários para que fossem povoados pelos mortos; demasiado gélidos para que fossem o palco de tormentos ígneos; demasiado sombrios para que neles reinasse o que traz a luz. Os infernos a que Díarmait descia eram, sem dúvida, outros: aqueles que só o homem é capaz de criar dentro de si e em que só ele próprio é, ao mesmo tempo, o castigo e o castigado.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Aduersus absentiam

Era, agora mais do que nunca, para oeste que se lhe projectava a alma, agulha magnética querendo quebrar o vidro que a contém. Sepultado na cidade, sabia-o longamente distante na ilha. Quando os primeiros dedos da noite vinham apagar os espaços de azul que lhe recordavam os dois pedaços de céu profundo onde, há mais de três anos atrás, guardara o coração, forçoso se lhe tornava redefinir o processo da memória associativa, única droga eficaz no acalmar dos sintomas lancinantes da saudade. Começava então por percorrer a pele dele nas orlas das nuvens esparsas, enrubescidas pela luz marcescente de um astro já declinado. Terminava acariciando os cabelos teimosos nos contornos das sombras de árvores debruadas contra o firmamento indeciso do crepúsculo. E na fresca aragem nocturna de um inverno senil, insinuava-se sobre os lábios o beijo primaveril que prometia uma convalescença próxima.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Findchán

À mão que lhe apodrecera por a ter colocado em nome de Deus sobre a cabeça do homem que amava - um assassino, diziam - Findchán enterrou-a antes que mãos de outros o sepultassem. Resignado com o castigo que então cria justo, chegou o dia em que forçoso lhe era trocar o mundo pelo lugar que lhe fora destinado nos reinos inferiores. Aí, comprazendo-se pela eternidade na companhia de sábios daemones benévolos, considerava os sucessos dos que ainda vivos iam navegando nas correntes vagarosas da História. Era com um sorriso sombrio, apenas esboçado, que via Deus tirano regozijando-se nas miríades de mãos humanas que impunham, em seu nome, a morte sobre cabeças inocentes. Findchán, desprezando semelhante hipocrisia, deixara já de tentar compreender porque não se lhes gangrenavam os membros revigorados pelo ódio, quando o seu fora condenado por amor.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Cormac - uma narrativa

À nona tentativa, Cormac avistou o ermo apetecido no coração triangular de nova ilhas escondidas a sudoeste. Selvagens, afiguravam-se-lhe fragmentos há muito perdidos da sua pátria. Mas ali, em lugar do Deus que conhecia, apenas vislumbres de esquivas divindades agrestes, indiferentes perante o homem que olhavam agora não sem alguma curiosidade, por entre a indiferença de uma ancestral altivez. Os seus mandamentos não podiam ser lidos em sagradas escrituras: tão-só adivinhados num restolhar de folhas, em vocábulos murmurados pelas ondas às rochas negras ou no silêncio ensurdecedor de uma cratera em repouso. Convertendo-se a esta religião, cujos cânones haviam sido esquecidos na sua terra há muitos ciclos atrás e em que encontrava enfim a paz que procurara em vão em tantas navegações estéreis, Cormac escolheu por mosteiro o tronco de uma faia. E ali permanece, líquen milenar contemplando o vulcão nas manhãs paradas das ilhas.