sábado, 7 de julho de 2012

Verba Aliena XIV - uenite nymphae

       


       Náiades, vós, que os rios habitais
que os saüdosos campos vão regando,
de meus olhos vereis estar manando 
outros, que quási aos vossos são iguais.

       Dríades, vós, que as setas atirais,
os fugitivos cervos derrubando,
outros olhos vereis que, triunfando,
derrubam corações, que valem mais.

       Deixai as aljavas logo, e as águas frias,
e vinde, Ninfas minhas, se quereis
saber como d' uns olhos nascem mágoas;

       vereis como se passam em vão os dias;
mas não vireis em vão, que cá achareis
nos seus as setas, e nos meus as águas.

Luís de Camões

domingo, 8 de abril de 2012

Fragmentum XIX - Aguilhão

Quando o aguilhão de um deus visceral rasga o véu delicado, envenena-se a certeza, descobrem-se horizontes indesejados. Vislumbre de verdade ou pedaço de mentira?

sábado, 7 de janeiro de 2012

Fragmentum XVIII - Símile

Agora arrastando atrás de si a trouxa das responsabilidades, retornado ante o mar fogoso e livre da sua infância, o pensamento vertia-se-lhe sobre o passado. Assim, sob um céu desanuviado de inverno, se atira contra a laje uma onda de azul profundo e, exibindo primeiro o seu ventre sinistramente esverdeado, desfaz-se em turquesa antes de se metamorfosear em espuma nevada que vai adornar a rocha negra.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Verba aliena XIII - La culture

La culture ne sauve rien ni personne, elle ne justifie pas. Mais c'est un produit de l'homme: il s'y projette, s'y reconnaît; seul, ce miroir critique lui offre son image.

Jean-Paul Sartre, in Les Mots

sábado, 27 de agosto de 2011

As cigarras

Não quero ser esta sucessão de dias sob os mesmo plátanos, os mesmos álamos, olhando os mesmos pedaços de céu recortados em arestas precisas. E fechar os olhos e acreditar no canto aderente das cigarras.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

O outro

Aqui posto e agora alienado, tão dolorosamente inepto, neste instante em que não sou em ninguém, em lugar algum. E mesmo se amo a cidade nas noites de jasmim e de laranjeiras em flor, tu como um sonho divagado. Afogar-me então em delírios verdes, para me sentir enfim exacerbado, embebido num mundo transfigurado. Mas nesse momento já não sou eu, o que escreve: há um outro que me substitui, um outro que não sou, mas que todavia me é demasiado.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Branco

Confrontada com os brancos de mármores e calcários que erigiam a cidade mediterrânica refugiada nas margens do Atlântico, a alma retraia-se-lhe em angústias lancinantes, exasperadas por uma luz demasiada. Pressentia nestes tons alvos o carácter funesto que lhes atribui Melville e nunca a pureza envergada por mártires recompensados no reino dos céus. Afinal era a cidade branca que lhe entregava o Amor e o Desejo em intermitências de êxtase, para logo depois os reclamar de volta em escárnio. Já a ilha negra de basalto guardava-os sob os auspícios de uma mais doce mas profunda saudade, envoltos em promessas de perene constância.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Catábase

Os infernos a que Díarmait descia eram outros: demasiado solitários para que fossem povoados pelos mortos; demasiado gélidos para que fossem o palco de tormentos ígneos; demasiado sombrios para que neles reinasse o que traz a luz. Os infernos a que Díarmait descia eram, sem dúvida, outros: aqueles que só o homem é capaz de criar dentro de si e em que só ele próprio é, ao mesmo tempo, o castigo e o castigado.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Aduersus absentiam

Era, agora mais do que nunca, para oeste que se lhe projectava a alma, agulha magnética querendo quebrar o vidro que a contém. Sepultado na cidade, sabia-o longamente distante na ilha. Quando os primeiros dedos da noite vinham apagar os espaços de azul que lhe recordavam os dois pedaços de céu profundo onde, há mais de três anos atrás, guardara o coração, forçoso se lhe tornava redefinir o processo da memória associativa, única droga eficaz no acalmar dos sintomas lancinantes da saudade. Começava então por percorrer a pele dele nas orlas das nuvens esparsas, enrubescidas pela luz marcescente de um astro já declinado. Terminava acariciando os cabelos teimosos nos contornos das sombras de árvores debruadas contra o firmamento indeciso do crepúsculo. E na fresca aragem nocturna de um inverno senil, insinuava-se sobre os lábios o beijo primaveril que prometia uma convalescença próxima.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Findchán

À mão que lhe apodrecera por a ter colocado em nome de Deus sobre a cabeça do homem que amava - um assassino, diziam - Findchán enterrou-a antes que mãos de outros o sepultassem. Resignado com o castigo que então cria justo, chegou o dia em que forçoso lhe era trocar o mundo pelo lugar que lhe fora destinado nos reinos inferiores. Aí, comprazendo-se pela eternidade na companhia de sábios daemones benévolos, considerava os sucessos dos que ainda vivos iam navegando nas correntes vagarosas da História. Era com um sorriso sombrio, apenas esboçado, que via Deus tirano regozijando-se nas miríades de mãos humanas que impunham, em seu nome, a morte sobre cabeças inocentes. Findchán, desprezando semelhante hipocrisia, deixara já de tentar compreender porque não se lhes gangrenavam os membros revigorados pelo ódio, quando o seu fora condenado por amor.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Cormac - uma narrativa

À nona tentativa, Cormac avistou o ermo apetecido no coração triangular de nova ilhas escondidas a sudoeste. Selvagens, afiguravam-se-lhe fragmentos há muito perdidos da sua pátria. Mas ali, em lugar do Deus que conhecia, apenas vislumbres de esquivas divindades agrestes, indiferentes perante o homem que olhavam agora não sem alguma curiosidade, por entre a indiferença de uma ancestral altivez. Os seus mandamentos não podiam ser lidos em sagradas escrituras: tão-só adivinhados num restolhar de folhas, em vocábulos murmurados pelas ondas às rochas negras ou no silêncio ensurdecedor de uma cratera em repouso. Convertendo-se a esta religião, cujos cânones haviam sido esquecidos na sua terra há muitos ciclos atrás e em que encontrava enfim a paz que procurara em vão em tantas navegações estéreis, Cormac escolheu por mosteiro o tronco de uma faia. E ali permanece, líquen milenar contemplando o vulcão nas manhãs paradas das ilhas.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Eochaid

Eochaid tinha por hábito não dar por si. Certo dia, em que caminhava sozinho por uma rua estéril, absorto em trivialidades, não foi a tempo de se desviar. Tropeçou em si. Onde caiu não havia fundo; pois como atingir o fim do abismo de si mesmo? Estava então ali, em queda imóvel, quando a viu: a Verdade, tendo o vazio por trono. A seus pés dormiam fantásticas alimárias, bestas apocalípticas e todo o séquito digno de constar no liber monstrorum. Não lhe fariam mal, disse-lhe Ela. Ali estavam, esperando para o tornarem livre. E ele não temeu. Aproximou-se. Ouviu-os em línguas impossíveis, que podia compreender. Revelaram-lhe portentos. Confirmaram-no divindade. Quando nesse dia Eochaid regressou, soube que se conhecia. Desde então, para sua grande incompreensão, de Eochaid dizem que é louco.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Ilhéus XVI - Nós

Nós
Levados ao brilho alvo
Pelo rolar das ondas
sobre areia dourada.

Nós
Desdobrados em valvas
De vieira encontrados
No fundo do mar da ilha.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Ano Novo

O novo ano amanheceu com o raiar da dor explodida no vácuo da tua ausência.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Ilhéus XV

Caiu-me em rajadas o vento das mãos
E fez restolhar faias nos teus cabelos.

Desfez-se-me a pele em aguaceiro
E humedeceu musgo no teu peito.

Cuspi a montanha negra do coração
Para se erguer ilha nos teus olhos.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Ilhéus XIV - Cormac



Três vezes buscou Cormac no mar um ermo;
E três vezes embarcou Cormac em vão.

Quantos homens buscam na lonjura
O que dentro de si logo encontrariam!

No olho da tempestade


Passamos através da tormenta,
Os nossos corpos exsudando
Os licores da dor e do prazer,
Tão firmes de enlevos volúveis.

E eis que quando se faz chão
o mar na calmaria, vacilamos
periclitantes, sob o céu morno
do olho da tempestade.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Ilhéus XIII - Quadro outonal

Onírica se desenha a montanha ígnea, sob o filtro da luz outonal como véu sobrenatural separando os homens dos deuses, que parecem ocultar-se além do veio platinado do mar; e a sua plácida divindade contém a custo nas entranhas a sua violência demiurga.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

De lassitudine

Do cansaço já não sei
Os princípios nem os fins
Dos dias sempre os mesmos
Sei apenas a ausência de ti
espreitando nas ruas vãs
duma cidade indiferente.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Fragmentum XVII - Rivendell

I saw you by the water at Rivendell. Through the leaves, beams of light danced with your locks of copper and gold, under the elves' playful chants. Were you singing too?

If only i could love you a day without time in the halls of the Last Homely House.