A cabeça enterrava-se na almofada à semelhança de um lastro. Era como se todo o corpo estivesse submetido a uma improvável gravidade horizontal, que o compelia a despenhar-se sobre as faces atormentadas. Sob as pálpebras serpenteavam medos de sempre, cruelmente comandados por um sentimento de incapacidade que o arrastava para o desespero numa lentidão precipitada. Fora, a luminosidade insalubre da cidade invadia o quarto: violentava a noite e a morte que procuravam em vão um descanso de trevas. Foi então que a luz lhe matou a esperança. E ele, por sua vez, pediu ao sono que o matasse.
sábado, 24 de abril de 2010
terça-feira, 20 de abril de 2010
Ilhéus XI - Deixei-te
Deixei-te de pés enterrados na areia negra,
Sentias na pele o mar novo tépido das ilhas.
Deixei-te estendido no basalto aquecido ao
sol e sobre o esfagno da caldeira e aquele
silêncio de ausência das coisas dos homens.
Deixei-te no ponto mais alto, na vulcânica
desolação em que te roubei um beijo que
me deste com o hálito sulfúreo da Terra
e nele o murmúrio Agora sabes quem Sou.
Sentias na pele o mar novo tépido das ilhas.
Deixei-te estendido no basalto aquecido ao
sol e sobre o esfagno da caldeira e aquele
silêncio de ausência das coisas dos homens.
Deixei-te no ponto mais alto, na vulcânica
desolação em que te roubei um beijo que
me deste com o hálito sulfúreo da Terra
e nele o murmúrio Agora sabes quem Sou.
domingo, 18 de abril de 2010
Fragmentum XV - in manibus pectoreque
Nas mãos a plenitude de um corpo silente, morno, e no peito a ânsia por uma improvável absorção.
terça-feira, 13 de abril de 2010
Ilhéus X - Há na cidade uma ilha
Há na cidade um mar que a submerge,
mar profundo de azul insular.
Há urze e faias nos prédios
em metamorfose e no ar
o cheiro a terra húmida
e negra, fértil de enxofre.
Há em Lisboa uma ilha,
quando acordado esqueço a cidade.
mar profundo de azul insular.
Há urze e faias nos prédios
em metamorfose e no ar
o cheiro a terra húmida
e negra, fértil de enxofre.
Há em Lisboa uma ilha,
quando acordado esqueço a cidade.
quarta-feira, 31 de março de 2010
Querem-me homem
Querem-me homem inventado
Com sonhos que nunca sonharei.
Querem-me homem falsificado
Por desejos que em mim não ardem.
Com sonhos que nunca sonharei.
Querem-me homem falsificado
Por desejos que em mim não ardem.
segunda-feira, 22 de março de 2010
flexo in uesperam die
morre-me o sangue
e a vontade dissolvida
nas horas histriónicas
incolores do crespúsculo
troçando de um sono
que nunca chegou.
e a vontade dissolvida
nas horas histriónicas
incolores do crespúsculo
troçando de um sono
que nunca chegou.
sábado, 20 de março de 2010
Previsão meteorológica
De teus olhos atmosféricos
se despenham a saraiva
que me perfura o espírito
e a eléctrica descarga
que de novo o traz à vida.
se despenham a saraiva
que me perfura o espírito
e a eléctrica descarga
que de novo o traz à vida.
segunda-feira, 15 de março de 2010
Choices
Is there in me a desire for a life of toil at sea, or rather for the comfort of a safe shore? I might become weary and overwhelmed by the endlessness of the great blue. Nevertheless safe shores are nothing but temporary, as we sit there gazing at the horizon, our hearts longing for the salty vastness. There shall always be gales that try our will, leading us astray; and isn’t it all about getting back on the right route after overcoming the storm and sail under soothed skies? For in the end of all things, only the watery god shall endure. And so shall true love.
sábado, 6 de março de 2010
Fragmentum XIV
Derramávamos em sobressalto o nosso desejo fremente, numa avidez de fruto proibido; e o cumprir-se do encontro dos nossos corpos apenas imaginado.
quinta-feira, 4 de março de 2010
Mots d'autrui VII - O resgate do Homem
La Rançon
L'homme a, pour payer sa rançon,
Deux champs au tuf profond et riche,
Qu'il faut qu'il remue et défriche
Avec le fer de la raison;
Pour obtenir la moindre rose,
Pour extorquer quelques épis,
Des pleurs salés de son front gris
Sans cesse il faut qu'il les arrose.
L'un est l'Art, et l'autre l'Amour.
- Pour rendre le juge propice,
Lorsque de la stricte justice
Paraîtra le terrible jour,
Il faudra lui montrer des granges
Pleines de moissons, et des fleurs
Dont les formes et les couleurs
Gagnent le suffrage des Anges.
Baudelaire
L'homme a, pour payer sa rançon,
Deux champs au tuf profond et riche,
Qu'il faut qu'il remue et défriche
Avec le fer de la raison;
Pour obtenir la moindre rose,
Pour extorquer quelques épis,
Des pleurs salés de son front gris
Sans cesse il faut qu'il les arrose.
L'un est l'Art, et l'autre l'Amour.
- Pour rendre le juge propice,
Lorsque de la stricte justice
Paraîtra le terrible jour,
Il faudra lui montrer des granges
Pleines de moissons, et des fleurs
Dont les formes et les couleurs
Gagnent le suffrage des Anges.
Baudelaire
terça-feira, 2 de março de 2010
Fragmentum XIII
(...) cada silêncio criminoso em nós é uma garra que nos martiriza as entranhas: somos vítimas de nós mesmos.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
sábado, 6 de fevereiro de 2010
Verba aliena XI - Do conhecimento de Deus
If we cannot comprehend God in his visible works, how then in his inconceivable thoughts, that call the works into being? If we cannot understand him in his objective creatures, how then in his substantive moods and phases of creation?
Edgar Allan Poe, in The Imp of the Perverse.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
Bicho assustado
Sentia a solidão alastrar como um cancro e, em cada órgão, em cada tecido e em cada célula, um pedaço de alma marcescente repugnava a enganadora perfeição das arestas geométricas que me violentavam o olhar, desprovidas de humanidade; porque a humanidade está na desordem aparente de um bosque, na aspereza de uma falésia e na violência do mar que a hostiliza, na assimetria de um pôr-do-sol, enfim, na perfeita harmonia de imperfeições. E eu, bicho assustado, recuo ao derradeiro buraco em mim onde a carne ainda palpita quente e húmida.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
Onde a cidade é triste I - Hortas de Benfica
Como me dão asco as pequenas hortas de Benfica, onde couves e alfaces crescem em tumor por entre ruínas de plástico e latão. Só um prado verdejante me comove, na sua espera agonizante pelo derradeiro golpe que o betão lhe virá desferir.
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Fragmentum XI
Enquanto se esforçava por abrir as portas da mente ao cansaço do corpo, para que, por fim, o sono lhe viesse saquear os salões em desordem, interrogava-se se ser louco era aquilo de neles ouvir pássaros chilreando e os gritos estridentes de melros evolando-se.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Verba aliena X - A Furna
Debruço-me comigo no meu poço
- Tudo fundo sonoro e emparedado -
E, rente aos tampos, ouço, ouço
Meu coração aproximado.
Mas de ouvi-o sou pálido e sem pulso:
Meu sangue foi preciso para ouvidos
E bate os mares e a terra, avulso
Nos próprios glóbulos perdidos.
Quem deseje saber o que se escuta
Nesta parede intolerável,
Veja se cabe em minha gruta:
Impenetrável! Impenetrável!
Que frios só seu chão calcaram
E sua abóbada sou eu
Nas tarde em que me levaram
Os meus amores o que era meu.
E já seu eco é uma humidade,
Leve chorume do escuro
Que se aprofunda em saudade
E em minha carne se faz muro.
Só luz dos musgos me distrai
Os olhos das naves frias
Na furna imensa em que se esvai
O fio de água dos meus dias.
Tão aflorada e tão profunda,
Tão bela no pedraço e na leveza,
Tão forte nas marés de que se inunda,
Aberta ao mar e à lua acesa!
Seus corredores complicam-me na sombra,
Um dedal de silêncio abre uma pedra,
Rorejam gotas para alfombra
Do vácuo de alma que lá medra.
De líquenes veste o sonho a aurora
Que dificulta o poço poço;
A lágrima enche de hora a hora
O copo ao menino e moço.
Mas estrias de lava, quem lhe entende,
Se ali riscou fogo vermelho
Alto sinal que só acende
Meu coração, palheiro velho?
E estalactites, estalagmites,
Correspondências aguçadas,
Enxofre, bafio, pirites,
Homens fugidos, mulheres choradas.
Vai o escuro furando o poço ardente,
Ouvem-se no oco as águas:
Ah, que barulho frio e imoto
Enruga a minha vida quente,
O meu secreto lençol de águas
Em que, nenúfar, bebo e broto!
A furna trava de mistério:
Sua garganta aberta ao dia
Calou o íntimo minério
Da minha estreme poesia.
Cala-o para que eu próprio vá batendo,
Dos martelos comuns abandonado,
O possível no opaco de atro urdume:
Que eu levo fogo pegado
E ninguém me pega lume.
Mas, se ardido por mim, me devo só,
A escravidão que tenho ei-la diuturna:
É estar aqui, de ouvido impresso em pó,
A ouvir-me velho ouvindo a furna.
Vitorino Nemésio
- Tudo fundo sonoro e emparedado -
E, rente aos tampos, ouço, ouço
Meu coração aproximado.
Mas de ouvi-o sou pálido e sem pulso:
Meu sangue foi preciso para ouvidos
E bate os mares e a terra, avulso
Nos próprios glóbulos perdidos.
Quem deseje saber o que se escuta
Nesta parede intolerável,
Veja se cabe em minha gruta:
Impenetrável! Impenetrável!
Que frios só seu chão calcaram
E sua abóbada sou eu
Nas tarde em que me levaram
Os meus amores o que era meu.
E já seu eco é uma humidade,
Leve chorume do escuro
Que se aprofunda em saudade
E em minha carne se faz muro.
Só luz dos musgos me distrai
Os olhos das naves frias
Na furna imensa em que se esvai
O fio de água dos meus dias.
Tão aflorada e tão profunda,
Tão bela no pedraço e na leveza,
Tão forte nas marés de que se inunda,
Aberta ao mar e à lua acesa!
Seus corredores complicam-me na sombra,
Um dedal de silêncio abre uma pedra,
Rorejam gotas para alfombra
Do vácuo de alma que lá medra.
De líquenes veste o sonho a aurora
Que dificulta o poço poço;
A lágrima enche de hora a hora
O copo ao menino e moço.
Mas estrias de lava, quem lhe entende,
Se ali riscou fogo vermelho
Alto sinal que só acende
Meu coração, palheiro velho?
E estalactites, estalagmites,
Correspondências aguçadas,
Enxofre, bafio, pirites,
Homens fugidos, mulheres choradas.
Vai o escuro furando o poço ardente,
Ouvem-se no oco as águas:
Ah, que barulho frio e imoto
Enruga a minha vida quente,
O meu secreto lençol de águas
Em que, nenúfar, bebo e broto!
A furna trava de mistério:
Sua garganta aberta ao dia
Calou o íntimo minério
Da minha estreme poesia.
Cala-o para que eu próprio vá batendo,
Dos martelos comuns abandonado,
O possível no opaco de atro urdume:
Que eu levo fogo pegado
E ninguém me pega lume.
Mas, se ardido por mim, me devo só,
A escravidão que tenho ei-la diuturna:
É estar aqui, de ouvido impresso em pó,
A ouvir-me velho ouvindo a furna.
Vitorino Nemésio
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
Ilhéus IX - Insula beati
Brancas as terras, ao de leve tingidas
pelos laivos róseos de um amanhecer.
Para o mar sopram elísias brisas
das colinas delicadas e os vales
apetecem jardins de delícias.
Ilha! que de mim fazes bem-aventurado!
pelos laivos róseos de um amanhecer.
Para o mar sopram elísias brisas
das colinas delicadas e os vales
apetecem jardins de delícias.
Ilha! que de mim fazes bem-aventurado!
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Fragmentum azoricum
fletus omnes, quos maerentes oculi mei fundere nequeunt, nubes ter pluuit custodiens insulas nouem.
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