domingo, 11 de março de 2007

Et l'on n'y peut rien

Olhas-me e eu reconheço-te. Tocas-me e a minha pele não te rejeita. Tão cheio o espaço entre nós. E então sei que sou em ti.

sábado, 10 de março de 2007

Recantos IV - Ailleurs


Ireland's Eye seen from Howth

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

Despojar-me de ti

Estas mãos. Não são as tuas!
Este cheiro. Não é o teu!
E estes lábios. Não são os teus!
E este olhar. Não te reconheço!
E este jeito. Estrangeiro!

Voltar. Não me deixo!
Ficar. Onde?

E despojar-me de ti. Não sei...

quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

Sinais de desespero

Esqueci o teu rosto. Perdi dentro de mim os detalhes que tão minuciosamente recolhi, aqueles que me permitiam reconstruir-te quando não te tenho por perto. Mas não o olhar. Esse não te pertence. É filamento frágil e efémero que se gera no espaço entre os teus olhos e os meus. E então tenho-te por momentos. Capturado nessa tua insinuação cruelmente ambígua, esforço-me por projectar até ti a massa viscosa da minha paixão. Esquivo, retalias com indiferença que não compreendo. E aqui me encontro prostrado, carregando este vazio repleto de dor.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

L'ange malveillant

Comme un ange malveillant, il descendit de ce ciel infernal pour anéantir le bonheur. De ses griffes il voulut arracher mon Coeur, et moi, aveugle, je l’ai déposé sanglant à ses pieds.

Il est parti, et mon âme désabusé...

sábado, 20 de janeiro de 2007

"Sacrifie-moi aux Dieux des amours amnésiques"

A dor de não ter o que ardentemente desejo. A perfídia de um Deus em que não quero acreditar. A prisão de um quarto que não o trará até mim. Sacrifiquem-me antes a esses deuses do esquecimento. Não. Não o quero esquecer...

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

L'absence

Comme tous ceux qui possèdent une chose, pour savoir ce qui arriverait s'il cessait un moment de la posséder il avait ôté cette chose de son esprit, en y laissant tout le reste dans le même état que quand elle était là. Or l'absence d'une chose, ce n'est pas que cela, ce n'est pas un simple manque partiel, c'est un bouleversement de tout le reste, c'est un état nouveau qu'on ne peut pas prévoir dans l'ancien.

Marcel Proust

sábado, 6 de janeiro de 2007

Rio de nuvens

Naquela manhã ainda tão jovem, não estava preparado para o que aquela paisagem, que todos os dias percorro com o olhar, me tinha a revelar. Não me apercebi ao iniciar a travessia da ponte, absorvido que estava nas palavras de Proust. Foi quando, por um breve momento entre o sonho e a realidade, ergui a cabeça para olhar à minha volta; foi nesse instante que vi o rio que agora era de nuvens brancas, um vasto tapete aparentemente imóvel, que só nas suas margens se expandia e contraía lentamente. E a terra recuara; a cidade suavemente acariciada, submergida pelas línguas vaporosas que se insinuavam, ora avançado, ora retraindo-se inseguras. Por cima, a lua, teimosa, brilhava ainda no céu azul da manhã recém-nascida.
Ao deixar esta sublime visão para trás, pensei: Estranho amor o que une o Tejo a Lisboa!

sábado, 30 de dezembro de 2006

Vem

Vem. Que hoje os meus olhos se recusam a partir. Vem. Sei que és anjo sem asas, mas vem dessa tua distância; e com o teu abraço faz malograr as investidas da Solidão. Prende-me com os teus beijos, para que o Tempo não me leve. Sê dono dos meus sentidos, que hoje não tenho forças para lutar.
Sei que não virás...mas deixa, pois a manhã redentora virá em teu lugar.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Partidas

Uns partem de novo, entre despedidas inocentes de optimismo, como se a próxima vez fosse uma certeza. Outros permanecem lá longe, parados no tempo que é o meu; movem-se nas memórias que a custo sobrevivem em mim, no medo de não os rever. E as saudades iluminam sentimentos que dormem, indomáveis, na escuridão.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

Indefinição

A imagem é difusa. As formas movem-se indefinidas; fundem-se, fragmentam-se, contraem-se e dilatam-se. E há o Tempo que as dilui. E a memória que luta contra a corrente. Queria poder fixá-las entre as minhas mãos, sob os meus olhos, e depois manipulá-las como me conviesse. Tudo o que consigo são impressões, fantasmas que me povoam o espírito. É assim que a custo vou caminhando através da bruma.

quarta-feira, 29 de novembro de 2006

Le sommeil

Un piège du Temps, voilà comment se présente à mes yeux le sommeil. Signe ultime de la fragilité humaine, le prix incontournable qu'on doit payer pour survivre, et pourtant ce n'est pas de la vraie vie quand on s'endort. Et puis cette peur! Et si la prochaine fois on ne se réveillait plus?

sexta-feira, 3 de novembro de 2006

A fonte

Neste dia em que o tempo me arrasta com um pouco mais de força, sempre na incontornável direcção do abismo, preciso da fonte. Nela, em vez da morte, renovar a vida, mesmo que por mera ilusão, inútil fingimento. Ou, quem sabe, aprender a aceitar a escuridão, a amar a luz enquanto a não apagam. E a fonte? A fonte é a ilha, a fonte é o mar e o sangue, e também o ventre. À distância, fecho os olhos e bebo das suas águas. E o tempo prossegue.

domingo, 22 de outubro de 2006

Conversion

"But Proportion has a sister, less smiling, more formidable, a Goddess even now engaged - in the heat and sands of India, the mud and swamp of Africa, the purlieus of London, wherever in short the climate or the devil tempts men to fall from the true belief which is her own - is even now engaged in dashing down shrines, smashing idols and setting up in their place her own stern countenance. Conversion is her name and she feasts on the wills of the weakly, loving to impress, to impose, adoring her own features stamped on the face of the populace. At Hyde Park Corner on a tub she stands preaching; shrouds herself in white and walks penitentially disguised as brotherly love through factories and parliaments; offers help, but desires power; smites out of her way roughly the dissentient, or dissatisfied; bestows her blessing on those who, looking upward, catch submissively from her eyes the light of their own."

Virginia Woolf

sábado, 14 de outubro de 2006

Recantos III




Envolvidos no calor intenso do Verão, atravessamos paisagens que, apesar de feridas pelo fogo, impõem a custo a sua dignidade. Gigantes serenos no horizonte, a Estrela e o Caramulo guardam estas terras que o Mondego atravessa, incansável na sua peregrinação até ao mar. Pelo caminho, cumprimentam-nos nostalgicamente as memórias de um longínquo passado da Humanidade.

sábado, 7 de outubro de 2006

Skógarmaðr

Qu'on me chasse de ce monde de métal

Je veux être banni,

Ignoré par ceux qui m'accablent

Oh oui, je suis le coupable

Le meurtrier qui songe à les tuer

Le loup humain, mais pas l'humain

Je suis l'homme des forêts

Le skógarmaðr

terça-feira, 3 de outubro de 2006

Manhã

"(...) there is something awful in the being surrounded by familiar faces asleep - in the knowledge that those who are dearest to us and to whom we are dearest, are profoundly unconscious of us, in an impassive state, anticipative of that mysterious condition to which we are all tending - the stopped life, the broken threads of yesterday, the deserted seat, the closed book, the unfinished and abandoned occupation, all are images of death. The tranquility of the hour is the tranquility of death."

Charles Dickens

quinta-feira, 21 de setembro de 2006

Recantos II - Ailleurs


Eau de L'Heure, Belgique

quinta-feira, 14 de setembro de 2006

Brumas

Misteriosamente, as brumas descem sobre a ilha. Onde ainda agora o sol fustigava com vigor as areias negras e os verdes campos, uma humidade densa penetra a terra e os corpos. O véu, de tons melancólicos, deixa entrever na sua extremidade uma faixa irónica da paisagem que se estende para além dele. Se foi o sol que se deslocou, intimidado, para essas outras paragens, ou se foi apenas a bruma que não conseguiu alcançar mais longe, não o sabem os mortais. Há magia nestas ilhas, outrora perdidas do homem. Magia que prende quem nelas ousou nascer. Os corpos escapam-se, mas os espíritos carregam para sempre a semente que implode lentamente, se privada do encantamento telúrico que a faz germinar.

segunda-feira, 14 de agosto de 2006

Sem título II

Entre as paredes de quartos familiares
Ela espreita-me, insaciável
Predadora de memórias de tempos felizes
Rasga-me o peito, impetuosa
Ábil constritora de corações
Não me perdoa o amor à vida

Nesta pérfida simbiose
Incendeia-se o espírito
Assim semeio no passado
Os desejos de amanhã

Rendo-me nesta guerra
Que ninguém ganha
Ela odeia-me porque não lhe pertenço
Ela pertence-me porque vem de dentro.