quarta-feira, 9 de março de 2011

Catábase

Os infernos a que Díarmait descia eram outros: demasiado solitários para que fossem povoados pelos mortos; demasiado gélidos para que fossem o palco de tormentos ígneos; demasiado sombrios para que neles reinasse o que traz a luz. Os infernos a que Díarmait descia eram, sem dúvida, outros: aqueles que só o homem é capaz de criar dentro de si e em que só ele próprio é, ao mesmo tempo, o castigo e o castigado.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Aduersus absentiam

Era, agora mais do que nunca, para oeste que se lhe projectava a alma, agulha magnética querendo quebrar o vidro que a contém. Sepultado na cidade, sabia-o longamente distante na ilha. Quando os primeiros dedos da noite vinham apagar os espaços de azul que lhe recordavam os dois pedaços de céu profundo onde, há mais de três anos atrás, guardara o coração, forçoso se lhe tornava redefinir o processo da memória associativa, única droga eficaz no acalmar dos sintomas lancinantes da saudade. Começava então por percorrer a pele dele nas orlas das nuvens esparsas, enrubescidas pela luz marcescente de um astro já declinado. Terminava acariciando os cabelos teimosos nos contornos das sombras de árvores debruadas contra o firmamento indeciso do crepúsculo. E na fresca aragem nocturna de um inverno senil, insinuava-se sobre os lábios o beijo primaveril que prometia uma convalescença próxima.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Findchán

À mão que lhe apodrecera por a ter colocado em nome de Deus sobre a cabeça do homem que amava - um assassino, diziam - Findchán enterrou-a antes que mãos de outros o sepultassem. Resignado com o castigo que então cria justo, chegou o dia em que forçoso lhe era trocar o mundo pelo lugar que lhe fora destinado nos reinos inferiores. Aí, comprazendo-se pela eternidade na companhia de sábios daemones benévolos, considerava os sucessos dos que ainda vivos iam navegando nas correntes vagarosas da História. Era com um sorriso sombrio, apenas esboçado, que via Deus tirano regozijando-se nas miríades de mãos humanas que impunham, em seu nome, a morte sobre cabeças inocentes. Findchán, desprezando semelhante hipocrisia, deixara já de tentar compreender porque não se lhes gangrenavam os membros revigorados pelo ódio, quando o seu fora condenado por amor.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Cormac - uma narrativa

À nona tentativa, Cormac avistou o ermo apetecido no coração triangular de nova ilhas escondidas a sudoeste. Selvagens, afiguravam-se-lhe fragmentos há muito perdidos da sua pátria. Mas ali, em lugar do Deus que conhecia, apenas vislumbres de esquivas divindades agrestes, indiferentes perante o homem que olhavam agora não sem alguma curiosidade, por entre a indiferença de uma ancestral altivez. Os seus mandamentos não podiam ser lidos em sagradas escrituras: tão-só adivinhados num restolhar de folhas, em vocábulos murmurados pelas ondas às rochas negras ou no silêncio ensurdecedor de uma cratera em repouso. Convertendo-se a esta religião, cujos cânones haviam sido esquecidos na sua terra há muitos ciclos atrás e em que encontrava enfim a paz que procurara em vão em tantas navegações estéreis, Cormac escolheu por mosteiro o tronco de uma faia. E ali permanece, líquen milenar contemplando o vulcão nas manhãs paradas das ilhas.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Eochaid

Eochaid tinha por hábito não dar por si. Certo dia, em que caminhava sozinho por uma rua estéril, absorto em trivialidades, não foi a tempo de se desviar. Tropeçou em si. Onde caiu não havia fundo; pois como atingir o fim do abismo de si mesmo? Estava então ali, em queda imóvel, quando a viu: a Verdade, tendo o vazio por trono. A seus pés dormiam fantásticas alimárias, bestas apocalípticas e todo o séquito digno de constar no liber monstrorum. Não lhe fariam mal, disse-lhe Ela. Ali estavam, esperando para o tornarem livre. E ele não temeu. Aproximou-se. Ouviu-os em línguas impossíveis, que podia compreender. Revelaram-lhe portentos. Confirmaram-no divindade. Quando nesse dia Eochaid regressou, soube que se conhecia. Desde então, para sua grande incompreensão, de Eochaid dizem que é louco.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Ilhéus XVI - Nós

Nós
Levados ao brilho alvo
Pelo rolar das ondas
sobre areia dourada.

Nós
Desdobrados em valvas
De vieira encontrados
No fundo do mar da ilha.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Ano Novo

O novo ano amanheceu com o raiar da dor explodida no vácuo da tua ausência.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Ilhéus XV

Caiu-me em rajadas o vento das mãos
E fez restolhar faias nos teus cabelos.

Desfez-se-me a pele em aguaceiro
E humedeceu musgo no teu peito.

Cuspi a montanha negra do coração
Para se erguer ilha nos teus olhos.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Ilhéus XIV - Cormac



Três vezes buscou Cormac no mar um ermo;
E três vezes embarcou Cormac em vão.

Quantos homens buscam na lonjura
O que dentro de si logo encontrariam!

No olho da tempestade


Passamos através da tormenta,
Os nossos corpos exsudando
Os licores da dor e do prazer,
Tão firmes de enlevos volúveis.

E eis que quando se faz chão
o mar na calmaria, vacilamos
periclitantes, sob o céu morno
do olho da tempestade.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Ilhéus XIII - Quadro outonal

Onírica se desenha a montanha ígnea, sob o filtro da luz outonal como véu sobrenatural separando os homens dos deuses, que parecem ocultar-se além do veio platinado do mar; e a sua plácida divindade contém a custo nas entranhas a sua violência demiurga.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

De lassitudine

Do cansaço já não sei
Os princípios nem os fins
Dos dias sempre os mesmos
Sei apenas a ausência de ti
espreitando nas ruas vãs
duma cidade indiferente.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Fragmentum XVII - Rivendell

I saw you by the water at Rivendell. Through the leaves, beams of light danced with your locks of copper and gold, under the elves' playful chants. Were you singing too?

If only i could love you a day without time in the halls of the Last Homely House.

sábado, 18 de setembro de 2010

Verba Aliena XII - Sono abismado


Le Gouffre

Pascal avait son gouffre, avec lui se mouvant.
- Hélas! tout est abîme, - action, désir, rêve,
Parole! et sur mon poil qui tout droit se relève
Mainte fois de la Peur je sens passer le vent.

En haut, en bas, partout, la profondeur, la grève,
Le silence, l'espace affreux et captivant...

Sur le fond de mes nuits Dieu de son doigt savant
Dessine un cauchemar multiforme et sans trêve.

J'ai peur du sommeil comme on a peur d'un grand trou,
Tout plein de vague horreur, menant on ne sait où;
Je ne vois qu'infini par toutes les fenêtres,

Et mon esprit, toujours du vertige hanté,
Jalouse du néant l'insensibilité.
- Ah! ne jamais sortir des Nombres et des Êtres!

Charles Baudelaire

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Vem

Vem pousar sobre os olhos inquietos
Como beijos que lhes desses, ligeiros;

Agitar-me em correntes de divindade branda
Como um olhar que me lançasses, doce abismo.

E, cobrindo-me do manto alvo da pele,
Alhear-me desta lonjura nédia de nada.

sábado, 4 de setembro de 2010

Fragmento XVI

Por entre este asco de superfície postiça, rebrilha a pura água do teu olhar perdido em profundidade.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Foram dias

Foram dias deslocados do tempo. Nas ilhas o tempo escorre por outros sulcos, abre-se por vezes num mar, fluindo ao sabor de uma maré indiferente. Foram dias de uma felicidade que não encontrou palavras, dispensou-as, aliás. Talvez seja isso; talvez as palavras só existam na infelicidade, na apatia, na necessidade de nos agarrarmos a um felicidade insatisfeita. Agora que o tempo voltou a perseguir-me nas ruas de Lisboa, emergem como uma visão, um indefinido sonho ledo, aqueles dias.

sábado, 3 de julho de 2010

Ilhéus XII

Cismo no vulcão
verso negro gravado
por um deus na paisagem.
Poeta de indizível matéria!

Cismo em mim
verso complexo tecido
por ignoto artesão
de sentidos sem palavras.

domingo, 6 de junho de 2010

O cansaço do escriba


Sínim mo phenn mbecc mbróenach
tar óenach lebor lígoll
cen scor fri selba ségonn,
dían mo chrob ón scríbonn.

Excerto de poema irlandês do século XI


Tentativa de tradução:

Estendo o meu pequeno cálamo humedecido
sobre o local de encontro de belos livros;
sem pausa para as possessões de mestres,
tão cansada de escrever, a minha mão.

sábado, 29 de maio de 2010

Idiomas imaginados

Ali semeado, o sangue
corre-lhe em vocábulos
Intensificado, no estertor
de qualquer coisa no
âmago, contra a paisagem
negra de areia jovem:
como se ali frutificasse
numa profusão de idiomas
imaginados em fonemas
vibráteis de quebranto.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Nihil noui condi potest

Nihil noui condi potest: tudo é variação do pré-existente.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Telémaco

- Agora é noite perdida de medo azul e longe intenso...

Mário de Sá-Carneiro


Desceu a deusa a visitar-me
Travestida em Solidão glauca.

Degustava-me o coração, dizia:
- Ainda vive a tua Alma, retida
no Oceano por nove ninfas ciumosas.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Poema nemesiano incompleto aut Poema nemesiano sem solução

Sei-me bicho estarrecido no negrume
de uma furna de Nemésio (...)

Onde houve lava, arrefeceu num colapso
de vazio (...)

Lambo do musgo a humidade condensada
dos meus dias (...)

Por onde a luz se esgueira espreito
o Tempo que não há cá dentro e
(...)
evolou-se a morte num grito sinistro
de cagarro (...)

Sei-me homem enfraquecido
Numa cidade que já morreu.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Renúncia

A noite traz-me versos em desassossego,
Esvoaçando por aqui num tumulto cego:
A mim que não sou poeta!

Recuso, excomungo, abjuro!
Derrotados uns dispersam,
Outros vencem irredutíveis
A minha mão forçada contra papel.

E sempre a inquietante evidência:
É em mim que a noite os colhe!

sábado, 24 de abril de 2010

O lastro

A cabeça enterrava-se na almofada à semelhança de um lastro. Era como se todo o corpo estivesse submetido a uma improvável gravidade horizontal, que o compelia a despenhar-se sobre as faces atormentadas. Sob as pálpebras serpenteavam medos de sempre, cruelmente comandados por um sentimento de incapacidade que o arrastava para o desespero numa lentidão precipitada. Fora, a luminosidade insalubre da cidade invadia o quarto: violentava a noite e a morte que procuravam em vão um descanso de trevas. Foi então que a luz lhe matou a esperança. E ele, por sua vez, pediu ao sono que o matasse.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Ilhéus XI - Deixei-te

Deixei-te de pés enterrados na areia negra,
Sentias na pele o mar novo tépido das ilhas.
Deixei-te estendido no basalto aquecido ao
sol e sobre o esfagno da caldeira e aquele
silêncio de ausência das coisas dos homens.
Deixei-te no ponto mais alto, na vulcânica
desolação em que te roubei um beijo que
me deste com o hálito sulfúreo da Terra
e nele o murmúrio Agora sabes quem Sou.

domingo, 18 de abril de 2010

Fragmentum XV - in manibus pectoreque

Nas mãos a plenitude de um corpo silente, morno, e no peito a ânsia por uma improvável absorção.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Ilhéus X - Há na cidade uma ilha

Há na cidade um mar que a submerge,
mar profundo de azul insular.

Há urze e faias nos prédios
em metamorfose e no ar
o cheiro a terra húmida
e negra, fértil de enxofre.

Há em Lisboa uma ilha,
quando acordado esqueço a cidade.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Querem-me homem

Querem-me homem inventado
Com sonhos que nunca sonharei.

Querem-me homem falsificado
Por desejos que em mim não ardem.

segunda-feira, 22 de março de 2010

flexo in uesperam die

morre-me o sangue
e a vontade dissolvida
nas horas histriónicas
incolores do crespúsculo
troçando de um sono
que nunca chegou.

sábado, 20 de março de 2010

Previsão meteorológica

De teus olhos atmosféricos
se despenham a saraiva
que me perfura o espírito
e a eléctrica descarga
que de novo o traz à vida.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Choices

Is there in me a desire for a life of toil at sea, or rather for the comfort of a safe shore? I might become weary and overwhelmed by the endlessness of the great blue. Nevertheless safe shores are nothing but temporary, as we sit there gazing at the horizon, our hearts longing for the salty vastness. There shall always be gales that try our will, leading us astray; and isn’t it all about getting back on the right route after overcoming the storm and sail under soothed skies? For in the end of all things, only the watery god shall endure. And so shall true love.

sábado, 6 de março de 2010

Fragmentum XIV

Derramávamos em sobressalto o nosso desejo fremente, numa avidez de fruto proibido; e o cumprir-se do encontro dos nossos corpos apenas imaginado.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Mots d'autrui VII - O resgate do Homem

La Rançon

L'homme a, pour payer sa rançon,
Deux champs au tuf profond et riche,
Qu'il faut qu'il remue et défriche
Avec le fer de la raison;

Pour obtenir la moindre rose,
Pour extorquer quelques épis,
Des pleurs salés de son front gris
Sans cesse il faut qu'il les arrose.

L'un est l'Art, et l'autre l'Amour.
- Pour rendre le juge propice,
Lorsque de la stricte justice
Paraîtra le terrible jour,

Il faudra lui montrer des granges
Pleines de moissons, et des fleurs
Dont les formes et les couleurs
Gagnent le suffrage des Anges.


Baudelaire

terça-feira, 2 de março de 2010

Fragmentum XIII

(...) cada silêncio criminoso em nós é uma garra que nos martiriza as entranhas: somos vítimas de nós mesmos.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Fragmentum XII

À force de trop s'aimer, on a souvent envie de se quitter.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Verba aliena XI - Do conhecimento de Deus


If we cannot comprehend God in his visible works, how then in his inconceivable thoughts, that call the works into being? If we cannot understand him in his objective creatures, how then in his substantive moods and phases of creation?

Edgar Allan Poe, in The Imp of the Perverse.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Here he comes again

Here
He comes
Again.
The Other,
Entangled
In his cold
Threads of
Loneliness.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Bicho assustado

Sentia a solidão alastrar como um cancro e, em cada órgão, em cada tecido e em cada célula, um pedaço de alma marcescente repugnava a enganadora perfeição das arestas geométricas que me violentavam o olhar, desprovidas de humanidade; porque a humanidade está na desordem aparente de um bosque, na aspereza de uma falésia e na violência do mar que a hostiliza, na assimetria de um pôr-do-sol, enfim, na perfeita harmonia de imperfeições. E eu, bicho assustado, recuo ao derradeiro buraco em mim onde a carne ainda palpita quente e húmida.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Onde a cidade é triste I - Hortas de Benfica

Como me dão asco as pequenas hortas de Benfica, onde couves e alfaces crescem em tumor por entre ruínas de plástico e latão. Só um prado verdejante me comove, na sua espera agonizante pelo derradeiro golpe que o betão lhe virá desferir.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Fragmentum XI

Enquanto se esforçava por abrir as portas da mente ao cansaço do corpo, para que, por fim, o sono lhe viesse saquear os salões em desordem, interrogava-se se ser louco era aquilo de neles ouvir pássaros chilreando e os gritos estridentes de melros evolando-se.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Verba aliena X - A Furna

Debruço-me comigo no meu poço
- Tudo fundo sonoro e emparedado -
E, rente aos tampos, ouço, ouço
Meu coração aproximado.

Mas de ouvi-o sou pálido e sem pulso:
Meu sangue foi preciso para ouvidos
E bate os mares e a terra, avulso
Nos próprios glóbulos perdidos.

Quem deseje saber o que se escuta
Nesta parede intolerável,
Veja se cabe em minha gruta:
Impenetrável! Impenetrável!

Que frios só seu chão calcaram
E sua abóbada sou eu
Nas tarde em que me levaram
Os meus amores o que era meu.

E já seu eco é uma humidade,
Leve chorume do escuro
Que se aprofunda em saudade
E em minha carne se faz muro.

Só luz dos musgos me distrai
Os olhos das naves frias
Na furna imensa em que se esvai
O fio de água dos meus dias.

Tão aflorada e tão profunda,
Tão bela no pedraço e na leveza,
Tão forte nas marés de que se inunda,
Aberta ao mar e à lua acesa!

Seus corredores complicam-me na sombra,
Um dedal de silêncio abre uma pedra,
Rorejam gotas para alfombra
Do vácuo de alma que lá medra.

De líquenes veste o sonho a aurora
Que dificulta o poço poço;
A lágrima enche de hora a hora
O copo ao menino e moço.

Mas estrias de lava, quem lhe entende,
Se ali riscou fogo vermelho
Alto sinal que só acende
Meu coração, palheiro velho?

E estalactites, estalagmites,
Correspondências aguçadas,
Enxofre, bafio, pirites,
Homens fugidos, mulheres choradas.

Vai o escuro furando o poço ardente,
Ouvem-se no oco as águas:
Ah, que barulho frio e imoto
Enruga a minha vida quente,
O meu secreto lençol de águas
Em que, nenúfar, bebo e broto!
A furna trava de mistério:
Sua garganta aberta ao dia
Calou o íntimo minério
Da minha estreme poesia.

Cala-o para que eu próprio vá batendo,
Dos martelos comuns abandonado,
O possível no opaco de atro urdume:
Que eu levo fogo pegado
E ninguém me pega lume.

Mas, se ardido por mim, me devo só,
A escravidão que tenho ei-la diuturna:
É estar aqui, de ouvido impresso em pó,
A ouvir-me velho ouvindo a furna.

Vitorino Nemésio

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Ilhéus IX - Insula beati

Brancas as terras, ao de leve tingidas
pelos laivos róseos de um amanhecer.
Para o mar sopram elísias brisas
das colinas delicadas e os vales
apetecem jardins de delícias.

Ilha! que de mim fazes bem-aventurado!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Fragmentum azoricum

fletus omnes, quos maerentes oculi mei fundere nequeunt, nubes ter pluuit custodiens insulas nouem.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Insónia

Minha pele derramou
o Sono no negrume
de uma noite inerte
que logo o devorou.

E eu abandonado ao queixume
do dia que nada reverte.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Ilhéus VIII - O tanque

Um poema
Regou-me a memória.

Ah, saudoso fantasma!
O portão de madeira dá para o carreiro de bagacina;
Passo a ameixoeira e a loja da velha casa,
Mas é ante a abertura do tanque que esta visão pasma,
E eu, nela empoleirado, à água escura jogo a minha mão pequenina.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Sem título

Meu porto de abrigo, meu farol,
Perdoa-me as vezes que renunciei à tua luz,
Queimado da dor exigente que é a do amor.
Mas fica sabendo que agora rojo a cruz
De ter desejado noutro céu tão falso arrebol.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Fragmentum X

L'esprit, la source de ces humains trésors;
Noire l'encre pour les faire prendre essor.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Ilhéus VII - Garras

Mais fundo se enterram as garras da minha insularidade,
Nestas horas embebidas em melancolia;
E minh'alma túrgida de saudade
Só nas ilhas, ao longe, espera novo dia.

Ilhéus VI - 25

Nos meus olhos de terra havia o azul
Do mar que lambe a ilha a sul;
Neles entrou por não se cansarem de buscar
O sonho infante que ali deixei afundar.

domingo, 1 de novembro de 2009

Fragmentum IX - Les étangs

De tes yeux je fais des étangs où mon âme farouche assouvit sa soif meurtrière.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Fragmentum VIII - Cemitério

Da janela, onde por vezes me quedo sozinho na fachada erma, não vejo morte; vejo apenas a dor dos vivos plasmada em lápides e mausoléus. Uma dor apaziguada, que me enternece no ar do entardecer, perfumado por flores e ciprestes docemente tristes.

sábado, 17 de outubro de 2009

Le temps perdu

Talvez um dia olhe para dentro e saiba ver. Talvez então regresse ao mar das ilhas, aquele que banhou a minha infância e só existe dentro de mim, e nele encontre, ainda boiando, um ovo nemesiano a custo contendo a câmara magmática que é fonte pungente dos meus medos e angústias originais. Talvez um dia recupere em algumas páginas esse tempo perdido.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Fragmentum VII - Sementes aladas

(...) voláteis, como sementes aladas, milagres darwinianos, que, levadas por um vento decidido, sempre ansiassem por germinar noutro qualquer lugar diferente daquele em que foram generosamente depositadas.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Ilhéus V - Longing

May i breathe anon the thick moist air ever wreathing the islands of undying green, ere my soul is shattered by the engulfing turmoil of the city where the sunlight, shining much too bright, abuses my senses.

domingo, 30 de agosto de 2009

Ilhéus IV - Le trou

Que cherche-t-il dans ce trou,
Quand le coeur triste devient vilain caillou?
Tous ces erreurs alourdissent son corps:
Il fallait d'abord se tenir debout.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Lamento continental de um ilhéu.

Em areais de finisterra - sol de Agosto ardente -
lá onde o Tejo espraia sua foz urbana,
e a ampla arriba encara o astro cadente,
inclino-me sobre a verde onda, banhando a turba humana;

Em terras do Austro, terra ruiva e olente,
manancial da porção do meu sangue arcana,
lá onde o Arade lodoso se lança indolente,
na verde onda despejo minh'alma que da saudade emana.

À verde onda imploro que célere a conduza
ao oceano azul, onde na bruma mora a musa
das ilhas encobertas que forjaram o meu Ser.

Nas veias mortificadas já se vai secando a lava,
e fenece a urze que na pele as suas raízes crava,
até que de novo à terra negra minh'alma vá beber.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

A Baudelaire

Quando me visitam os demónios da noite funda
C'est le Satan de tes litanies qui me guette dans l'ombre!
Da pele escorrem-me córregos de minh'alma moribunda,
Quand m'oppresse la cadence de ton horloge, ô poète sombre!

domingo, 12 de julho de 2009

Fragmentum VI

Les jours sont maussades dans cette chambre où mon âme s'éparpille. Malgré l'été qui brûle dehors, un éternel hiver habite dedans.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Verba aliena IX - Sensualidade


Ah, que melhor alcaiota que a noite! Todos os demónios da sensualidade saíram à uma dos seus tugúrios, do céu, do inferno, da alma e da carne, e reforçaram o seu poder abismal.

Aquilino Ribeiro, in A Casa Grande de Romarigães

terça-feira, 30 de junho de 2009

Fragmentum V

Relembro ainda do Alentejo
aquele intenso arrebol.
No horizonte onde nasce o Tejo,
derramava seu sangue o sol.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

À un gentil belge

Le long de la Sambre, comme dans un tableau verdoyant,
On causait sous un tiède soleil printanier
Moi, de mon français si souvent hésitant,
Toi, avec cette gentillesse qui m'a toujours tant rassuré!

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Estilhaços de um dia

Manhã de Séneca, tradução insatisfatória, espondeus e créticos ciceronianos, hexâmetros renascentistas. Telefonema de uma mãe que chora e a onerosa obrigação do sangue. Um homem morto, coberto por rendilhados brancos, ouvindo conversas temperadas de lágrimas, palavras fracassadas de consolação, e o cheiro ao mofo sagrado. O meu dever, dizem-me. Desencontros e beijos de partida desejando ficar. No rio inundado pela noite, derramo o dia. O meu dever, dizem-me. Mas não mo dizem. Sou eu, sempre eu. Adormecer, por fim.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Pequena memória insular

- Aqui-d'el-rei que aqueles diabos me comem os figos! - gritava minha avó correndo para a varanda, onde agitava a linha que fazia com que chocalhassem as latas estrategicamente dispostas na horta, para afugentar o bando de estorninhos de plumagens metálicas que, em grande algazarra, assediava as duas figueiras carregadas dos frutos doces como mel. Cumprida a sua missão, reinando, logo regressava à cozinha a amanhar os inhames, que ao almoço acompanhariam a linguiça, como eles picarota e sua companheira na travessia do canal para findar ali fritinha em banha de porco derretida na frigideira de minha avó.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

2 anos

Dos meus braços uma vontade silente
de te envolver se desprende desmesurada,
e dos meus lábios, esvoaçando, um beijo fremente
parte ao encontro da tua pele bem amada.

Estagna-se-me a alma no azul olhar inocente,
enquanto o corpo segue a minha mão açodada,
discorrendo sobre o teu peito cedente
ao furor de uma Vénus desbridada.

Envoltos no olente humor amoroso,
exsudado pela mistura de corpos e almas,
cumpre-se o sentimento a custo conquistado;

É que nos agarramos a este amor nem sempre ditoso,
por incompreensão lançado em dolentes chamas.
Mas aos que verdadeiro o têm espera-os um doce fado.

Táim i ngrá leat.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Mots d'autrui VI - Os grotescos

Grotesques

Leurs jambes pour toutes montures,
Pour tous biens l'or de leurs regards,
Par le chemin des aventures
Ils vont haillonneux et hagards.

Le sage, indigné, les harangue;
Le sot plaint ces fous hasardeux;
Les enfants leur tirent la langue
Et les filles se moquent d'eux.

C'est qu'odieux et ridicules,
Et maléfiques en effet,
Ils ont l'air, sur les crépuscules,
D'un mauvais rêve que l'on fait;

C'est que, sur leurs aigres guitares
Crispant la main des libertés,
Ils nasillent des chants bizarres,
Nostalgiques et révoltés;

C'est enfin que dans leurs prunelles
Rit et pleure - fastidieux -
L'amour des choses éternelles,
Des vieux morts et des anciens dieux!

- Donc, allez, vagabonds sans trêves,
Errez, funestes et maudits,
Le long des gouffres et des grèves,
Sous l'oeil fermé des paradis!

La nature à l'homme s'allie
Pour châtier comme il le faut
L'orgueilleuse mélancolie
Qui vous fait marcher le front haut,

Et, vengeant sur vous le blasphème
Des vastes espoirs véhéments,
Meurtrit votre front anathème
Au choc rude des éléments.

Les juins brûlent et les décembres
Gèlent votre chair jusqu'aux os,
Et la fièvre envahit vos membres,
Qui se déchirent aux roseaux.

Tout vous repousse et tout vous navre,
Et quand la mort viendra pour vous,
Maigre et froide, votre cadavre
Sera dédaigné par les loups!

Paul Verlaine

sábado, 6 de junho de 2009

Fragmenta Azorica metrica - I

Terras Oceano in mari olim finxit quidquam numen
nubiferas; nam bruma illas tegit atque occultat.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Ilhéus ΙII - laetum in temporem redire


Ὦ ἀγλαὴ Φύσι με τοῦ καλοῦ μῆτερ δέχου
.

Somente procuro um pouco de sombra
sob o verde sempre viçoso da faia em flor,
entre o contínuo chilrear de alegres pardais
e o esporádico grito estridente do negro melro.
Por leito, o fofo esfagno aromático, suavemente aspergido,
onde um dia, respirando o telúrico silêncio da ilha,
a teu lado me deitei envolvido na perfeição
de um amor sem raias.

domingo, 17 de maio de 2009

Verba Aliena VIII - Sossego

Und ein Weilchen lang lag er ruhig mit schwachem Atem, als erwarte er vielleicht von der völligen Stille die Wiederkehr der wirklichen und selbstverständlichen Verhältnisse.

Franz Kafka, in Die Verwandlung

quarta-feira, 13 de maio de 2009

O cristal

Quando à minha volta grassam sentimentos vítreos, estilhançando-se no choque da incompreensão, e outros, erguidos sobre o vazio, em betão hipócrita, nédios de egoísmo, corroendo as entranhas dos pobres de espírito, não deverei eu preservar este puro cristal, que dos teus olhos cerúleos se mineralizou no meu coração? Que doce se faz esse sofrimento, contrastado por instantes de felicidade indízivel, ante a opção de uma solidão sem fundo, esvaziada de humanidade; pois se dos destroços da dor se me regenera o espírito em novo ciclo, ao toque ardente da tua pele!

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Fragmentum IV

Doucement, il se glissa vers un court sommeil - encore une de cettes petites morts qui mènent à cet indispensable oubli momentané de tout ce qui nous accable - plongé dans une mer émotive de Debussy.

sábado, 9 de maio de 2009

Num postal

Perguntava-me, que escreveria eu num postal a oferecer a um amigo que partia, tendo visitado os Açores pela primeira vez. Apanhado de surpresa, apenas me ocorreu:

Que guardes no coração um pouco de bruma misturada com sol incerto, e no olhar, derramado até ao mar, um pouco de tanto verde cobrindo o basalto negro destas minhas ilhas.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Fragmentum III

My hands rushed across the white plains of his chest, lured by the gushes of his skin's elysian scent, and i feared only lest such love should remain unfulfilled.

sábado, 18 de abril de 2009

Inuenire

Inuentus sum a non quaerentibus me. Sic et ego quem non quaerebat inueni.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Não é poesia

Não é poesia isto que escrevo
Pois se sou indigente na forma;
E a dizer-me poeta não me atrevo
Pois se me é ignota a norma.

Não sou Vergílio, não sou Nemésio;
A mim não me tocou o Génio.
E às palavras traz-me o coração:
Sem ele, em mim, é o engenho vão.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Partida ansiada

Iço velas incorpóreas e rumo às ilhas. Mihi necesse est animam mentemque purgare.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Carta em tradução adaptada.

Se cada vez que o mar se retira for preciso chorar as ondas, como se elas não fossem regressar para lamber as nossas longas praias brancas; se quando os barcos se inclinam, se aconchegam nas algas, os marinheiros acreditarem que vão perecer, então compreendo que as minhas partidas te destrocem. Se sempre que a noite se abate sobre nós, for preciso chorar o entardecer, como se fosse para sempre o fim das claras manhãs e da esperança; se sempre que eu afasto o olhar for preciso que me impeças de mergulhar nas minhas terras de tantas maravilhas, então compreendo que as tuas pálpebras sequem. E mesmo se, na pior das hipóteses, eu um dia permanecesse distante, seria preciso que nos dissessemos que poucos conhecem o que as nossas peles sabem. É que o meu coração sofre de tantas influências...Vê como dançam nos meus pensamentos as estrelas ou a lua, a falésia ou a duna. Afinal, sou apenas o movimento das marés... nada mais que o movimento das marés.

Adaptado do original Le mouvement des marées, de Daran.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Mots d'autrui V - La Débauche

La débauche est certainement un art comme la poésie, et veut des âmes fortes. Pour en saisir les mystères, pour en savourer les beautés, un homme doit en quelque sorte s'adonner à de consciencieuses études. Comme toutes les sciences, elle est d'abord repoussante, épineuse. (...) Mais quand l'homme est monté à l'assaut de ces grands mystères, ne marche-t-il pas dans un monde nouveau? (...) Ces monstruosités sociales possèdent la puissance des abîmes, elle nous attirent comme Sainte-Hélène appelait Napoléon; elles donnent les vertiges, elles fascinent, et nous voulons en voir le fond sans savoir pourquoi.

Honoré de Balzac, in La peau de chagrin

domingo, 1 de março de 2009

Verba Aliena VII - Os maldizentes


y es querer atar las lenguas de los maldicientes lo mesmo que querer poner puertas al campo.


Cervantes, in El ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Fragmentum II

Agitava os dedos num suave ondular como se entre eles enovelasse o ar fresco da noite.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Sous le froid perçant de mon tombeau

Lembrar-me-ei das tuas mãos alvas
Sous le froid perçant de mon tombeau
Lembrar-me-ei delas esguias
Sous le froid perçant de mon tombeau
Delas quentes deslizando, ou frias
Sous le froid perçant de mon tombeau
Delas frenéticas sobre mim, ou vagarosas
Hardies sur mon corps gonflé de vie!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

sine arte

Essoutro mundo em que existo, para lá dos espessos sedimentos das minhas aparências - onde, é preciso reconhecê-lo, também Sou - permanecia intraduzível. De que sublimes prodígios literários seria capaz, não fosse o meu domínio da linguagem humana assaz insuficiente para povoar de palavras, arrumadas em belas frases, esse espaço imenso por onde adejam um sem número de imagens, sensações, emoções, memórias dos sentidos e tantos outros indefiníveis fragmentos de vida e individualidade.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Que país este

Que país este que me cheira a mofo, apesar de tanto sol, e a terra lavada por tanto mar. A mofo do que é antigo e se descuida; a mofo do que é novo e nasce já putrefacto. Que terra esta tão cansada dos seus homens.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Fragmentum I

...and above, Orion overcome by the city lights, his famous star-forged belt shrouded in clouds dispersed.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Verba Aliena VI - Os estranhos

Que um desconhecido qualquer me inquiete assim, parece à minha inteligência ora infantil, ora sinistro, ora...literário. Sou, é certo, dos que reparam nos gestos, nas expressões, nos perfis das pessoas que passam. É certo que já várias criaturas desconhecidas têm ferido a minha atenção dum modo anormal; e depois passam, nunca mais as vejo, nada me explica as singulares aproximações que entre nós se esboçaram. Penso então se não seriam pessoas que têm as minhas mesmas doenças, ou cujo destino virá mais tarde a cruzar o meu.

José Régio, in Jogo da Cabra Cega

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Spes

Olha, meu amor. Vês ao longe o vulcão que surge para lá do canal, agora que a bruma se retira? Não o vês, bem sei. Mas vê-lo-ás em breve. Contemplarás o Olimpo atlântico, e conhecerás os seus numina. Ouvi-los-ás murmurar nos ventos roçando tanto verde e na onda que rebenta nas costas negras. E levar-te-ei à cratera adormecida onde escutarás o silêncio do mundo, longe dos homens. Só então saberás quem sou e o nosso amor se cumprirá enfim.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Enough

I move in time with your promising eyes
I embrace the dreaming
But time to time I beach myself on the shores
Of desperation
Still I’m pregnant with hope, and I’m saintly with faith
Cos you got me breathing,
There’s no limitation for those who have love
It goes beyond believing
But if I don’t insist, I might drown, and miss the completion
I’ve walked alone for too long on my own to have bliss,
Escape me….
I hold your love,
But is that enough?
I covet him, like a child and a wish
While these wounds are weeping
And I close my eyes, and he’s there by my side
But I cannot be held in the arms of a ghost
But if I don’t insist, I might drown, and miss the completion
I’ve walked alone for too long on my own to have bliss,
Escape me….
I hold your love,
But is that enough?

Carla Werner

sábado, 27 de dezembro de 2008

Ilhéus II

São quatro muros lívidos de mármore
Encarcerando a alma sob um céu vazio.

São na cidade os contornos de betão defuntos,
Nas ruas que o Belo há muito desertou.

São os espinhos da coroa de um amor insatisfeito
Que nada redimem e tudo corrompem.

É a bruma que esconde todos os horizontes.

É o que nos mata antes da Morte.

É a solidão.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Amhrán

Once i heard of a song. They say it was old, that the music was the wind blowing on rocky shores and the voice was uttered by the first man, still in the Earth's womb, crying bitterly for he knew the time had come to part from his mother.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Fora a cidade, dentro a ilha

Estremunhado das páginas de um livro, desço por fim do monstro metálico, que segue rugindo detestável. E dentro o silêncio da ilha. O ar fresco da noite não me reconforta, fétido da podridão da cidade caótica. E dentro o aroma húmido de mar e bruma, da terra túmida de fertilidade vulcânica. Ferem-me os contornos inestéticos das arestas de betão. E dentro desenha-se o vulcão ao longe para lá do canal, a lua santificando o seu cume. Fora o corpo languesce na cidade. E dentro correm as lágrimas da minha insularidade.


(o itálico neste texto não corresponde a palavras de outrem.)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

An t-aisling

Não os conheço. A ela vira-a antes, no sonho. Dizia-me com serenidade que morreria em breve, e pareceu-me que sorria levemente ao afirmá-lo. Era o cansaço. Estava na altura. E como num filme, saltei de cena. Já morria, sentada nas escadas. Olhava-me agora num misto de paz e aflição. Talvez não porque tivesse medo, mas porque não podia evitar o último estertor da vida que quer continuar, mesmo quando a exaustão do corpo e da alma reclamam o fim. No meu colo chorava uma criança. Eram familiares. Não os conhecia, mas sentia uma profunda tristeza. Suspeito até que chorava e gemia no meu sono. E com um último olhar terno, proferiu um derradeiro adeus, interrompido pela morte. Morreu. E a criança chorava, no meu colo. Não sei quem era.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Vergílio Ferreira

Tecida numa malha de um existencialismo desconcertante, a narrativa avança sincopada, num ritmo estonteante, que faz com que o leitor prossiga folegando a custo, tropeçando em abismos de desgraça súbita e desespero, para mais tarde melhor sentir a vertigem dos momentos de plenitude do ser, do assombro causado pela revelação da suficiência de si mesmo. E sempre a morte, espreitando e atacando inopinadamente, ora na planície monótona, ora sob a neve que cobre uma qualquer terriola escondida na montanha.

Toda a solidão do mundo entrou dentro de mim. E no entanto, este orgulho triste, inchando - sou o Homem! Do desastre universal ergo-me enorme e tremendo. Eu.

Vergílio Ferreira, in Alegria Breve

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Ilhéus I

Da tua face as searas
Ondulam acariciadas
Pela doce brisa de Eros.

Sur l'herbe drue, nourrie par le sol volcanique, nous étendrions nos corps alourdis par le chagrin.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Horizonte em sangue

Acordávamos cedo, demasiado cedo. A todos, o sono ainda nos agarrava aos colchões dos beliches, que começavam a arrefecer privados das únicas fontes de calor naquelas manhãs frescas de Verão. Mas contra ele lutava a vontade de, dia após dia, mergulhar em três mil anos de passado. Três mil, se os conto bem. Atravessávamos então a vila, onde a noite ainda teimava em ficar, deixando-se penetrar a custo por uma luminosidade tímida. Era sempre a subir e, nas ruas estreitas, já algumas mulheres esfregavam religiosamente as paredes de suas casas, como se a vida dependesse do branco irrepreensível que, avançando o dia, refulgiria sob o sol alentejano. Até que, virando um esquina, encontrávamo-nos face à grande escadaria que levava à ermida. Na memória falta-me o nome, mas sei que era branca do branco das casas, e um azul celeste pintava-a em redor. As traseiras davam para a escavação - um Deus orgulhoso não olha de frente os seus antecessores sem nome, dormindo esquecidos dos homens sob a terra que desconhece o oblívio. Sentados nas pedras sobremaneira antigas, esperávamos que o dia viesse permitir-nos o trabalho. Quando o fazia, o Sol erguia-se em ferida, derramando sangue no horizonte, tingindo-o de um encarnado tão intenso, que a sua aparência sobrenatural gravou no meu espírito as palavras que aqui escrevo decorrido mais de um ano desde então.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Um desafio

Aqui vai a resposta a um desafio proposto por uma libelinha: escolher um grupo ou artista e responder às questões com títulos de músicas. Nunca faço estas coisas, mas não recuso nada a uma libelinha!! Pode ser perigoso! De resto, não vou "marcar" ninguém. This is just for you, little firefly.

Artista: Sigur Rós

1. És homem ou mulher? "starálfur (staring elf)"


2. Descreve-te:
"hjartað hamast (the heart pounds)"


3. O que as pessoas acham de ti? "við spilum endalaust (We play endlessly)"


4. Como descreves o teu último (antes do actual) relacionamento?
"gobbledigook" (sem tradução, eu chamar-lhe-ia Prankster boy)


5. Descreve o estado actual da tua relação amorosa: "viðrar vel til loftárása (good weather for airstrikes)"


6. Onde querias estar agora? "svo hljott (so quiet)"


7. O que pensas a respeito do amor?
"inní mér syngur vitleysingur (inside me a lunatic sings)"


8. Como é a tua vida? "saeglópur (a lost seafarer)"


9. O que pedirias se pudesses ter só um desejo? "hoppípolla (jumpin' puddles)"


10. Escreve uma frase sábia: "ágaetis byrjun (an alright start)"

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Um concerto

Hoje, sem as ver, senti as paisagens da Islândia traduzidas em música. O branco e os sons da neve, lagos e montanhas e planícies desoladas paradas no tempo, imóveis: vi-os nos acordes lentos e repetitivos, na voz etérea que se eleva como o som de um vento solitário percorrendo imensidões. Mas também a fúria vulcânica, pulsando sob a calma aparente, rompendo a terra sem aviso, recriando-a: vi-a na música que cresce pacientemente, até que explode em vibrações de uma densidade e intensidade tais que desfazem o último laço que ainda nos ligava ao chão que pisávamos, para nos levar para norte, bem para norte. E agora vou dormir. Talvez sonhe com a aurora boreal.

domingo, 2 de novembro de 2008

La vague

Et cette douleur qu'il crut éteinte s'insinuait à nouveau comme une vague océanique lente et presque imperceptible - dont l'épicentre était le coeur ébranlé par le soupçon inconscient d'avoir été oublié, par cette absence silencieuse de l'autre - et qui, à défaut d'un signe nourrissant pour cet amour qui a toujours faim, vient tout à coup s'écraser sur les sables noires du désespoir.

sábado, 25 de outubro de 2008

A estética das palavras

Olc líth dolluid ind nathir
cosin n-athir dia chathir,
sáib sí céni i m-bith ché
co m-bu haithbe nad búe.

Irlandês Antigo, excerto de A Viagem de Bran.


Wearð him on Heorote to handbanan
wælgæst wæfre; ic ne wat hwæder
atol æse wlanc eftsiðas teah,
fylle gefægnod.

Inglês Antigo, excerto de Beowulf.


Naddhristir, ák nesta

norn til arfs of borna.
Þigg, Auða konr, eiða,
eiðsært es þat, greiða.

Nórdico Antigo, excerto de Saga de Egil


Pwyll Pendefig Dyfed a oedd yn argwydd ar seith cantref Dyfed. A threiglweith ydd oedd yn Arberth, prif lys iddaw, a dyfod yn ei fryd ac yn ei feddwl fyned i hela.

Galês Medieval, excerto de Mabigonion


Hyvä mutso, kaunis mutso, mutso valkeanverevä!
Hyvinpä ko'issa kuuluit, tyttönä ison ko'issa;
hyvin kuulu kuun ikäsi miniänä miehelässä!

Finlandês, excerto de Kalevala

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

A vida de X

X andava na vida um pouco à maneira de Proust, observando a dos outros e o mundo como que espreitando por uma falha no tecido de Einstein, um pé no tempo, outro fora dele, ora em todo o lado, ora em lugar nenhum. Sabia encontrar nos outros e nas coisas aquela pontinha do fio em que começa o casulo do bicho-da-seda - que em criança me diziam que procurasse e que nunca consegui encontrar - porque o mundo são muitos casulos contidos uns nos outros, do infinitamente pequeno ao incomensuravelmente maior; e percebê-lo é encontrar todas as pontinhas, e desenrolá-las, e descobrir onde se tocam, onde se enriçam. X conseguia-o. X sabia o mundo e as pessoas. Mas X tinha um problema: era incapaz de escrever o que observava. Então X resignava-se e lia Proust.

(A todos os que lerem e o possam pensar: X não sou eu, ou nem sempre, ou não exactamente, ou talvez nunca.)


Auch fühlt er sich fremd in unserer Zeit; als gehöre er zwar zu meiner Familie, aber überdies noch zu einer andern, ihm für immer verlorenen, ist er oft unlustig und nichts kann ihn aufheitern.

Franz Kafka, in Elf Söhne

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Good question

Were it to be in my hands to change the unbearable, would i do what has to be done? Would i take my chances?