Sentara-me ao seu lado, de alma corroída pela dor da minha decisão. Olhava no vazio, procurando fugir àquele olhar inocente que ainda me fazia vibrar de amor, como naquele primeiro dia em que me sentira fulminado de águas límpidas. Esforçava-me por cerrar as narinas àquele perfume que nunca soube descrever, para que não deitasse por terra todas as muralhas que a custo lograra erguer.
- Estou cansado. Tão cansado.
- Eu sei. Não compreendo. Para ti nunca é suficiente.
- Talvez um dia percebas. Quando sentires que não é suficiente.
- Pois. Talvez. Mas eu amo-te.
- Pergunto-me se saberás mesmo o que é amar. E dói-me. É que te amo tanto.
- Mas então...
- Não o posso fazer sozinho. Não o posso fazer pelos dois. Tem de acabar. De que serve dizeres que me amas, se quando a voz se cala a solidão se instala de novo, e os gestos não são mais que ausência impenetrável, bloco de mármore pálido e frio, contra o qual esbarra o meu grito de necessidade, aquele que implorou amiúde que te entregasses a nós?
- Lá estás tu e as palavras.
- Se pudesses compreender que eu sou estas palavras e todas as outras que para ti são vento estéril, sobretudo quando não agradam ao teu egoísmo. Porque para ti está sempre tudo bem. É por isso que tenho de nos deixar para trás. Porque estou cansado do meu próprio eco. Porque estou fora de ti e tu estás entranhado em mim.
- Tu é que sabes. Não posso fazer nada.
Levantei-me. Ouvir mais seria insuportável. Ficar seria submeter-me a uma morte lenta. E se me morre a alma, que me resta?
Então afastei-me com lágrimas petrificadas na garganta.